Valores Femininos

por Marina Moraes

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Repórter de TV em Nova York, anos 90, me deram a pauta: “Faça uma matéria sobre um restaurante especializado em “game”. Entreviste o dono, os clientes, mostre o serviço”. Meu inglês ainda era limitado, mas o orgulho juvenil me impediu de perguntar exatamente do que se tratava. Desci com a equipe, um cinegrafista e um assistente, diante de um restaurante elegante, num endereço bacana de Manhattan. O ambiente era luxuoso, mas achei de mau gosto as cabeças de animais com aqueles olhos vitrificados e chifres enormes, distribuídas pelas paredes. O lugar estava cheio, as mesas quase todas ocupadas, muita conversa, risadas e descontração. Pensei: “Eles devem beber bastante enquanto jogam”. Procurei o proprietário, um italiano sizudo de avental e comecei a entrevista ali mesmo na cozinha: “Como é um restaurante de “games?” Ele fez um olhar surpreso e respondeu abrindo um enorme freezer: ” Isso é javali. Isso é leão. Isso é canguru…” e seguiu mostrando pedaços enormes de carne. Insisti: “Certo. Já vi  que os animais são mortos. Agora me explique como são os games”.  Perdendo a paciência que não tinha, ele me pede num sotaque carregado que vá ao salão, olhe as mesas. Saímos percorrendo o lugar, o maitre sempre colado, e entrevistando os clientes que elogiavam a comida, contavam detalhes do seu preparo, mostravam os pratos, mas “game” que é bom eu não via nenhum e devo ter demonstrado minha frustração porque, de repente, o italiano começou a gesticular de longe, chacoalhando o cardápio no ar. Nesse momento, fiz o que deveria ter feito assim que entrei no restaurante: abri o cardápio e li. O tal “game”  não era “jogo” como na tradução literal do inglês, mas “caça, animal selvagem”. O restaurante servia filé de leão, javali assado, chilli de canguru e outras bizzarices que aqueles ricos excêntricos apreciavam. Fiz um sinal aliviado para o câmera, ainda havia tempo para recomeçar. A cena do italiano apontando a geladeira aos berros ” The game is overrrr here!”  abriu a matéria, que foi ar no dia seguinte.

Publicado sábado, 18 de maio de 2013 às 17:07.
Comente primeiro!

Contador também tem coração

 


O contador está conosco há muitos anos. Veio recomendado por outros clientes de longa data, gente cujo valor do patrimônio só pode ser declarado, ou não declarado, por um profissional experiente e confiável. Entregar nossa parca administração financeira a um escritório desse porte nos deu a segurança de que precisávamos para tocar a vida sem sustos nesse território. Há histórias horríveis aí fora de golpes, trambiques ou pura incompetência contábil que tiram o sono do meu marido como perder uma liquidação anual da Tiffany tiraria o meu. Não havia nenhuma razão para estranharmos os emails recentes escritos com muito mais erros de portugues do que de costume. Nem para desconfiarmos das últimas notas fiscais que nos enviaram, escaneadas umas sobre as outras, como uma estampa de letras e números impressa na tela do computador. Não suspeitamos nem quando ele, em geral excessivamente zeloso, não deu falta do meu informe de rendimentos e achou graça quando foi comunicado.

Foram as malcriações da filha e braço direito do contador que chamaram a atenção. Os “façam como acharem melhor” ou “tratem direto com meu pai”  absolutamente inapropriados que começamos a receber na troca de correspondências de uns tempos para cá. Meu marido queria reunir a família inteira  (o outro filho dele, esse um zero `a esquerda, também dá expediente no escritório) para reclamar do atendimento, mas contemporizei lembrando que toda mulher, mesmos as das ciências contábeis, tem altos e baixos muito justificáveis. Ponderei que deveríamos fazer vista grossa para o seu mau humor desde que isso não interferisse na entrega do serviço . Vista grossa é a expressão que tem sido usada contra mim desde então. Não cabe vista grossa no universo de um contador. Nem no do cliente de um contador `as vésperas da entrega do IR.

Ainda estávamos tentando nos esconder na zona de conforto quando a bomba explodiu. A filha do contador ligou anunciando que o pai, um senhor de cerca de 70 anos, estava apaixonado pela secretária do escritório, tinha se separado da mulher e se mudado para um sítio com a namorada. O plano dele era seguir trabalhando remotamente. “Muito remotamente”, pensamos. Ela então, em solidariedade `a mãe, estava se demitindo.

Com o telefone na mão, branco de susto, meu marido parecia estar recebendo as instruções de um sequestrador. Guaguejava monossilábico, anotando o telefone do sítio, onde ela nos alertou “internet e celular pegam mal”.

Como ocorre a todo pessimista clássico, seus piores pesadelos eram agora realidade. Tentei quebrar o pânico descrevendo o casal em clima de lua de mel caliente, transando em cima da mesa sobre os nossos documentos, derramando champanhe na nossa declaração de renda, anotando os nossos numeros a lapis na banheira. Meu marido estava transtornado. Não havia mais tempo para mudar o jogo. Querendo acreditar que, mesmo apaixonado ,um contador continua um homem das ciências exatas e, portanto, mais frio e focado do que a média, decidiu seguir esta última empreitada com ele.

Hoje o dia será longo e tenso. E´o prazo final para a entrega da declaração do imposto de renda e não conseguimos avisar a Receita Federal de que pode haver um errinho ou dois por conta da situação amorosa do nosso (in) fiel prestador de serviços.

Publicado terça-feira, 30 de abril de 2013 às 11:14.
3 Comentários

A volta por cima

Fui ter com o Paulo Vanzolini no ano de lançamento da National Geographic no Brasil. Estávamos montando um seleto grupo de consultores para as diversas áreas que a revista cobre e o Matthew Shirts, diretor da publicação, pensou em convidá-lo para ler em primeira-mão as matérias vindas dos Estados Unidos que envolvessem zoologia. Se encontrasse algum termo mal traduzido, alguma expressão inadequada, ele, assim como faziam os outros consultores, levantaria a bandeira vermelha e faríamos as correções necessárias. Vesti minha melhor roupinha, passei perfume e fui ao Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. O lugar é bonito e solene como cabe a um museu de 1941, mas assusta quem não está acostumado `a meia-luz em plena luz do dia e `as variadas espécies da nossa fauna largamente retratadas na fachada e nos enormes vitrais do prédio. Quando entrei na sala, Vanzolini, diretor do museu, estava concentrado trabalhando e parecia não se lembrar ou não querer se lembrar do nosso compromisso. Levantou os olhos por trás dos óculos e perguntou no tom mais malcriado possível sobre o que eu queria conversar. Quando expliquei minha missão diplomática ali, não teve pena nem vaidade e em nome do descaso com a atividade científica nacional, xingou a revista, a imprensa, os norte-americanos, o governo brasileiro, todas as instituições públicas de que se lembrou. Usava expressões fortes como ” é imperioso que façamos” e sacudia os braços no ar. Acostumados com a personalidade forte, a defesa exaltada de suas opiniões e a alma artística do nosso zoólogo, os outros funcionários não interrompiam seus afazeres. De vez em quando um sorria com cumplicidade para mim. Encolhida na cadeira dura, arrependida por ter me oferecido para fazer o convite pessoalmente, fazia contagem regressiva para o momento de agradecer e nunca mais voltar.
Mas aconteceu o inevitável e enquanto ele vociferava, foi crescendo em mim uma admiração por aquele senhor que já tinha quase morrido de febres e doenças tropicais adquiridas nas dezenas de viagens de pesquisa que ele havia feito Amazonia adentro, um respeito pela seriedade e dedicação dele num ambiente científico com tão pouco apoio e recurso, como sempre é no Brasil. E mais, enquanto ele esbravejava de jaleco, no meio daqueles vidros e líquidos mal cheirosos, eu o via relaxado na mesa do botequim, ao lado de outros sambistas paulistas, compondo as coisas maravilhosas que estão aí. Acho que a minha expressão apaixonada foi mais forte e ele, que não era homem insensível `as questões do coração, foi mudando de assunto e me convidou para caminharmos até um bar perto da sua casa, por tabela, perto do museu. Ali, bebericando cerveja durante varias horas, revelou-se o homem sedutor, o compositor boêmio, o cientista curioso e destemido que eu tinha ido procurar. Ouvi histórias, verdadeiras ou falsas, sobre as suas viagens por 11 mil quilômetros de rios brasileiros, sua coleção de bichos, a relação com os povos ribeirinhos e as vantagens de estar casado agora com a melhor cozinheira do mundo.
Em tempo: ele não aceitou o convite da National.

Publicado segunda-feira, 29 de abril de 2013 às 14:11.
Comente primeiro!

As Marinas

Sou Marina dos dois lados, de pai e de mãe. A avó Marina Ferraz, mineira de Guaxupé, certa vez, sozinha comigo no carro e mantendo os olhos sempre para a frente, tomou coragem e me perguntou como era se casar mais de uma vez. Três para ser mais precisa. Não encontrei espaço para uma conversa íntima e respondi apenas que era três vezes melhor e três vezes pior, dependendo do dia. Acho que ela tinha uma opinião formada sobre o assunto e o que aparentemente seria uma crítica aos meus maus costumes ou inveja da libertinagem era, na verdade, pena de mim. Mulher séria, de poucas palavras, mas certeira na malcriação. Quando elogiavam sua excelente forma física já na faixa dos 90 anos, dizia apenas: “E´que fiquei viúva cedo”. Não havia ali uma crítica a meu avô, mas ao casamento de modo geral e o que aquilo representava de dedicação, investimento pessoal, renúncia e abnegação para as mulheres daquela época. De fato, na velhice, minha avó era a mais saudável, bonita, elegante, bem disposta e sobretudo, a mais confortável consigo mesma, entre as cinco irmãs. A exceção que comprova a regra, é a tia Nair, que ficou solteira e segue falante e curiosa como sempre foi ao longo dos seus 103 anos. Bem, terei que nascer de novo para comparar as experiências.

A outra Marina, carioca, carregava nas veias o sangue liberal e artístico dos Motta. Cantava, tocava piano, fazia piada de tudo, especialmente das preocupações, na sua opinião, excessivamente banais de meu avô. Era um médico dedicado e um homem focado nas soluções práticas e eficientes para as dificuldades do dia-a-dia . Tinha a mania de consertar tudo o que tivesse alguma chance de sobrevida, de uma xícara com a asa quebrada a armação solta dos óculos e ganhou dela o apelido de “doutor goma arábica”, uma cola bastante popular, porque além dos restauros, não desgrudava das pessoas enquanto não finalizasse uma conversa por mais trivial que fosse o assunto. Ela, em contrapartida, nunca tinha ouvido falar em “meia sola” ou “roupa cerzida”  e vivia num mundo paralelo onde só cabiam os seus sonhos, as suas fantasias, a poesia, a musica, o romance. Contava que, filha de senador e irmã de ministro, cresceu num ambiente cercado de proteção e só foi conhecer as delícias do cotidiano ao se casar com meu avô e ganhar passe livre para as ruas. Me encantava com as suas observações sarcasticas, e talvez inapropriadas para os ouvidos de uma menina, sobre os prazeres e desapontamentos do amor: ” Não há nada científico, mas estou certa de que os carecas são mais viris” ou “Fuja dos homens bonitos que quase sempre são burros e não há nada mais odioso do que a companhia de uma pessoa burra”. Contava que, novinha, passou vários dias flertando com um rapaz que se plantava do outro lado da rua, bem em frente ao casarão da família, olhando para ela de longe e escrevendo qualquer coisa no tronco de uma árvore com um canivete. Ela jurava que era uma mensagem, um poema, uma declaração e mal pode esperar o dia em que finalmente conseguiu fugir e correr até a árvore onde, recortada na madeira, estava a palavra absolutamente gratuita: “formiguinha”!

Gostava de assistir luta livre e me convidava para dormir com ela nos plantões de meu avô para torcermos juntas pelo Ted Boy Marino. `As vezes, fugíamos de tarde para um boteco perto da casa dela onde bebíamos, ela cerveja e eu guaraná, em pé no balcão, ao lado dos frequentadores menos nobres do bairro.

Uma ocasião, pedi que fizesse um biquini de croche para mim, em moda no Rio naquele verão. Não era exatamente uma mulher prendada, mas ficou entusiasmada com a idéia de me ver usando uma peça feita por ela. De brincadeira, acrescentei que deveria fazer só a parte de baixo, que não se usava mais a de cima. ” E seu pai não acha ruim?” , perguntou. “Ele não gosta muito, mas o negócio agora é topless, vovó” . Esqueci o assunto. Uma semana depois ela me entrega a encomenda. Uma calcinha de croche cor de areia, com lacinhos para amarrar nas laterais. Sem a parte de cima. “Ái, que inveja”, lamentou.

Publicado domingo, 28 de abril de 2013 às 22:00.
3 Comentários

No limite

Num dos muitos estágios a que me sujeitei na vida, fui encarregada de visitar uma fabrica de fibra de vidro que iria ambientar um comercial de automóvel. Fomos recebidos, eu e o produtor, pelo gerente da tal fábrica que todo orgulhoso caminhava `a nossa frente exibindo as instalações. Pouco antes de entrar, ainda na kombi, o produtor me ofereceu um Halls, aquela bala ardida que suga o ar que a gente respira. Ele sempre carregava aquilo no bolso, acho que porque como todo produtor macho bacana daquela época, fumava, bebia, não tinha tempo para escovar os dentes e beijava as meninas sem muitas preliminares. Aceitei a bala na pura inocência, foi a minha primeira vez. Era uma bomba relógio com hora certa para explodir. Assim que nos apresentamos na recepção, o dispositivo mentho-lyptus foi detonado e percebi que não poderia suportar a boca queimando por muito tempo. Queria me livrar da bala, mas não achava jeito. Aquilo estava me enlouquecendo, jogava de um lado pro outro, segurava com os dentes, empurrava com a língua. Foi na subida de uma escadaria toda vazada, a caminho da sala de reunião que tomei coragem, discretamente cuspi o Halls na mão, deixei a bala escorregar lá de cima entre os degraus e ainda ouvi o barulhinho da sua queda no solo. Depois de uma conversa para acertar os detalhes da gravação, descemos novamente e, já a caminho da porta, o gerente nos segura para o ponto alto da visita: uma enorme maquete da fábrica, toda em fibra de vidro, montada sobre uma estrutura de concreto. E lá estava ele, o Halls, como uma nave espacial, estratégicamente estacionado no heliporto do predio, transparente como todo o resto do projeto e na proporção exata das figuras da maquete. Meu coração disparou. Naquele momento entendi que o mundo se divide entre gente séria, de futuro brilhante e gente que não vale nada e merece passar a vida chacoalhando na kombi, como eu.

Publicado quarta-feira, 10 de abril de 2013 às 22:24.
1 Comentário

Simples assim

Quebrou o nariz do marido, 16 anos mais novo, e não fez curativo nem quando se arrependeu mais tarde. Como com criança testando os limites dos pais, sabia que para ser respeitada era preciso se manter firme ainda que o coração amolecesse. O soco estava armado desde o dia em que ela desconfiou que arrancar os pelos do peito e das costas com cera quente era sacrifício demais para um homem querendo agradar a esposa. Na época era depiladora num salão e, a pedido dele, fez o serviço em casa, sob o olhar atento do filho pequeno, entre uma ponta de esperança de que fosse, de fato, uma tentativa de parecer gostosão para ela e um oceano de cisma de que os seus recentes atrasos não eram hora extra coisa nenhuma. O soco direto é dado com a mão dianteira. É um golpe muito importante pois é o de mais longo alcance. Tem diversas serventias, como medir a distância do oponente, afastá-lo, dar o primeiro golpe de uma série de ataques e testar a defesa do adversário.Ótimo golpe pois requer o mínino deslocamento. Quando ele chegou em casa`as 11 da noite com cheiro de sabonete, ela partiu para cima usando instintivamente o que tinha aprendido no treinamento de luta. Acumulava agora o emprego de segurança num baile funk nos finais de semana para completar o dinheiro do mês. Revistava as bolsas das mulheres na entrada, dava incertas no banheiro feminino para garantir que não havia venda de drogas, farejava confusão na pista e avisava os colegas. Com os sentidos aguçados pela função, sentiu logo a mentirada do marido e mandou um direto na cara dele. Tinha experiência na matéria. Como lembrou a mãe no dia seguinte quando foi pedir um pouco de gelo para “desinchar o desgraçado”: “Você não tem moral prá bater em homem nenhum. Pelo tanto que já aprontou, bem podia ser um deles”. No casamento anterior, era ela quem dava suas voltas. Cansada da rotina matrimonial, arrumou um namorado do outro lado da cidade e duas ou três vezes por semana, fazia uma baldeação de cerca de duas horas antes de voltar para o lar e encarar o fogão. Chegava em casa exausta, mas feliz. Um dia o marido desconfiou, plantou-se na porta do barraco alheio e, quando saíram, jurou matar os dois. Ela chorou, mostrou arrependimento e para acalmar a fera, tatuou o nome dele , Valdosul ( irmão de Valdoeste), de ponta a ponta logo acima do bumbum . “Fiz de propósito para aniquilar qualquer má intenção. Inclusive as minhas”. Como pau que nasce torto, não conseguiu endireitar e arrumou outro namorado ainda mais longe de casa. Para não desrespeitar o marido e, sobretudo, não desgostar o outro, nos encontros, usava um emplastro Sabiá sobre a tatuagem com o pretexto de que tinha dor crônica na região lombar, também chamada de lombaldia. Trabalhava como recepcionista numa clínica de RPG naquela época e a idéia lhe veio com muita naturalidade. Dessa forma, nos rápidos momentos da paixão tórrida vividos com o namorado entre o trem , o metro e os ônibus, o adesivo escondia o Valdosul e encobria a monotonia do casamento. Mas a estratégia durou apenas até o verão que, naquele ano, veio cheio de personalidade e com temperaturas altas o suficiente para derreter qualquer emplastro colado num corpo suado e em movimento. Cansada de tanto esforço, achou mais prático separar-se  de uma vez e  arrumar um marido mais jovem, com vigor suficiente para que ela voltasse para casa sem baldeação. O tal que terminou depilado, frente e verso, e com o nariz quebrado. Ela estava agora pensando em pegar a vaga anunciada no açougue da rua de cima.

Publicado domingo, 7 de abril de 2013 às 21:18.
Comente primeiro!

Hipoteticamente falando

No restaurante com a Manuela há alguns anos.

- Mãe, eu gostaria tanto de ter um filho! Se eu ficasse grávida, você cuidaria dele? 

- Você tem 17 anos. Prefiro não pensar no assunto.

- Cuidaria?

- Não.

- Como não? Você e´a avo´dele! Como eu vou estudar, então?

- Você teria que dar um jeito, não sei. Eu trabalho, tenho outras coisas para fazer. 

- Você deveria parar tudo para olhar seu neto!

- Não, minha filha. Nem eu nem você estamos na idade disso. Se você tem essa expectativa, reveja o plano porque não vai rolar. 

-  Nunca pensei que você seria omissa assim! Como você acha que eu iria sustentar esse bebê?

- Filha, fale baixo. Você não poderia ter um filho agora…

- Você e´tão egoísta! Prefere gastar todo o seu dinheiro comprando bolsas e sapatos do que as fraldas do meu filho!

-  Aí, que vergonha. Pare de gritar, tá todo mundo olhando. Gente, ela nem tem namorado, juro!

 

Publicado domingo, 17 de março de 2013 às 20:42.
1 Comentário

Nem tão saudável

A casa de sucos e sanduíches naturais estava cheia quando o mendigo entrou pedindo dinheiro. O clima no lugar ficou mais pesado. O dono é um tipo neo-nazista mal-humorado, com tatuagens e piercings disputando espaço pelo corpo e uma cara fechada que mete medo até nos saradões que repõem a energia ali depois da academia. Talvez por isso é que até hoje ninguém ousou sugerir que o som ambiente seja alguma coisa menos agressiva e perturbadora do que Metallica e Iron Maden. Os funcionários, por tabela, raramente sorriem ou são gentis. Como hospital público, é ser atendido e desocupar o lugar. O endereço é excelente e o cardápio maravihoso, então, ficamos cegos, surdos, quase mudos, mas não deixamos de ir.

O pedinte parou na minha mesa e antes que o afastassem dali, disse a ele que pagaria um lanche, que  poderia escolher o que quisesse. Olhou concentrado para o meu açaí que, modéstia a parte, estava lindão, coberto de granola e rodelas de banana e fez o pedido direto para o garçom em tom de desafio: “Quero um igual ao dela!” E foi para a porta esperar. Os empregados se entreolharam, depois para mim, por ultimo para o proprietário, que fez que sim com a cabeça. Um deles pegou o copo de isopor fechado e levou lá fora, já despachando o mendigo. Ele, então, abriu a embalagem e voltou até a minha mesa para reclamar: “Eu pedi igual ao seu, com essas coisas todas aí. Olha aqui, veio sem nada!” Não tive outra alternativa senão dividir minha granola e a banana com ele. Se reclamasse do serviço é possível que expulsassem nós dois.

Publicado sexta-feira, 15 de março de 2013 às 20:58.
1 Comentário

Uma corridinha

O locutor da radio JB anunciou `as 7h da manhã que a máxima seria de 38 graus. Talvez por sugestão, comecei a suar ali mesmo no ar condicionado do carro e cá estou, escrevendo talvez as minhas últimas palavras antes de um novo temporal que precisa cair sobre nós antes que sejamos cozidos coletivamente como parte de um ritual satânico qualquer. O dia já começou quente. Como a esportista que não sou e com o bom senso que não tenho, desconsiderei a temperatura sufocante e achei de correr na praia como faço todos os dias. Descalça, estilo etíope, e de biquini, estilo carioca do Leblon. Depois de poucos metros, finalmente entendi para que servem os cílios. Eles são a “calha” que segura o suor e o conduz para fora dos olhos de forma a não ficarmos quase cegos com o sal como fiquei quando a calha se rompeu com o excesso de transpiração. Para enxugar os olhos, esfreguei as mãos sujas de protetor e piorei o mal estar. No meio do percurso, com os olhos ardendo e as pernas pesadas, atropelei uma mulher deitada na canga, chutei areia nela e fugi como fazem os covardes nessa situação. Segui então para a beira da água onde recuperei o equilíbrio. Quase podia ouvir a trilha de Carruagens de Fogo enquanto meus pés pisavam a areia molhada em câmera lenta e tentei ser elegante como os corredores na cena clássica do filme, mas isso não durou mais do que 5 minutos. Senti câimbras e terminei manquitolando e gemendo na rede de vôlei onde havia pendurado meu vestido e as havaianas. Quando deixei minhas coisas ali, as havaianas, camiseta e shorts, ainda era cedo, não havia ninguém e como me pareceu um bom varal, seguro e discreto, engastalhei tudo na corda e fui correr. Agora, a rede estava ocupada por dois times de mulheres uniformizadas, fortes e furiosas que me cortariam em pedaços só com o saque. Procurei pegar as coisas com a pontinha dos dedos, de forma discreta para não atrapalhar a concentração do que me pareceram os times olímpicos de Cuba e China, que vi na televisão e nunca esqueci tanto medo senti daquelas mulheres. Como estava cansada demais, meio trêmula do esforço exagerado, o gesto mal calculado fez as havaianas tomarem impulso e voarem entre as jogadoras. Num último esforço, pedindo a Deus que o jogo não parasse, me arrastei na areia quente, apanhei as sandálias e fui para o mar tentar me afogar para esquecer.

Publicado quarta-feira, 13 de março de 2013 às 21:08.
2 Comentários

Depressão

Conversa entre dois senhores, faixa dos 70 anos, no elevador :
- Que calor, hein?
- Pior é sair de casa só para perder tempo.
- Onde você estava?
- Na análise, mas abandonei a sessão. Estou realmente decepcionado. Para dizer o mínimo.
- Você ainda vai na Heloisa, ali na Dias Ferreira?
- Não sei se volto lá. Ela estava alcoolizada.
- Não é possível !
- Voltou bêbada do almoço e foi me atender. Ficou meio cochilando, não conseguia entender nada do que eu dizia, me pedia para repetir as coisas. Uma falta de respeito!
- Você poderia entrar com um processo…
- Eu entendo a gente tomar um aperitivo, uma cervejinha no almoço. Eu mesmo, você sabe, sempre bebi bem, mas seguia direto do restaurante para casa. Ela teve o descaramento de ir para o consultório, 400 reais a sessão! Mas para variar, o chato sou eu. Até a terapeuta tem que beber para me aguentar!

Publicado terça-feira, 12 de março de 2013 às 15:47.
Comente primeiro!
Valores Femininos por Marina Moraes © 2013 - Todos os direitos reservados.