Valores Femininos

por Marina Moraes

Entre o vermelho Ferrari e o verde barbante

Programa Falando em Dinheiro - 31/05/2011

A reforma do apartamento já estava marcada quando surgiu a viagem a trabalho para Toquio onde eu ficaria por duas semanas. Achei melhor seguir em frente com a reforma  já que, coincidentemente, o Helio estaria fora no mesmo período, numa outra viagem.  A ausencia dele comprometeria a supervisão da obra, mas pelo menos teríamos uma preocupação a menos com as refeições, barulho, pó, bagunça. Eu, as meninas, a Milene, que trabalha em casa, e as gatas, podemos sobreviver por um bom tempo comendo mal, dormindo mal, cheias de alergia, com as nossas coisas amontoadas em caixas pelos cantos. Basta não coincidir as TPMs. Já o Helio… Houve uma votação e decidimos iniciar a obra no instante em que ele deixasse a casa a caminho do aeroporto. E assim fizemos. Fui administrando a situação de longe, no início  zonza com o dia trocado pela noite, depois já com o fuso ajustado. Eram dezenas de emails que iam e vinham com imagens de paredes derrubadas, referencias de cores, de tecidos e perguntas da decoradora (a esta altura uma verdadeira empreiteira instalada em casa, despachando com os pintores e pedreiros, dando palpite na comida da família…). Eram dúvidas sobre tonalidades que eu nem sabia que existiam como “vermelho Ming” ou ” verde barbante”, diferenças sutis (para mim, não para ela) entre o tom goiaba e o melancia. Quem conviveu comigo nesses dias acompanhou o processo porque é claro que eu interrompia uma reunião com dez japoneses para me queixar  de que estavam pintando minha cozinha de vermelho, erraram na cor, ficou rosa ” e agora eu vou morar na cozinha da Barbie!”  Ainda ontem chegou um email falando sobre um projeto digital super bacana que estamos trazendo para o Brasil, com detalhes técnicos e tudo e no final uma observação irônica: “Espero que você tenha se decidido entre o vermelho tomate e o Ferrari.”  

As crianças agüentando  as piadas dos funcionários. O pintor : “Não se preocupem com a cor forte. É só tomar café da manhã de óculos escuros. Rárárárá”.  Eu de longe. Só nos emails. Tinha que dar ok para tudo: “Vou trocar  um prego na lavanderia, ok?”  ”Ok”  . “Vou  colocar um ralo  menor, ok?”  “Ok”  Who cares? Quem se importa? Pelo visto, muita gente. O numero de assassinatos de decoradoras por clientes insatisfeitas deve ser altíssimo. A minha queria deixar tudo no papel. Ou no email.

A reforma atrasou, claro. O irmão do pintor foi assassinado no botequim no domingo à noite, tadinho. O cara não veio trabalhar dois dias e depois ainda ficou meio deprimido, precisava a casa inteira ficar conversando com ele para distrair e não deixar beber. O poeirão subindo, as gatas rolando na sujeira feito uns bichos selvagens e depois andando em tudo. Eu cheguei arrastando as malas, naquela assepsia japonesa e mergulhei no inferno. Mas não há calmante que não resolva quase tudo. A decoradora/empreiteira que vive  à base de medicação já me estendeu uma cartela que deve durar até o fim da reforma.  Parte do pacote. Ela leva o trabalho muito a serio. Assumida mesmo. Quando fizemos uma reunião no escritório antes de  ir viajar, ela distribuiu amostras de  tecido pela sala toda, sobre as cadeiras, sobre o monitor, ia jogando para mostrar o efeito dos  panos, a “caída”.  Estávamos numa sala da agencia onde trabalho, toda de vidro, que é para queimar o meu filme de vez. Passa o Renato Loes, presidente da agencia, cola a cara no vidro, abre um pouquinho a porta e diz: ” Quando a reunião acabar, vocês vão sair para comprar tecido? Não quero atrapalhar o programa, de maneira alguma. É que a Marina precisa me entregar um texto…”

Bem, já estamos na reta final, a gente já nem precisa tomar banho de havaiana, nem comer na cama, dá até para encontrar uma peça no quartinho de passar roupa se tiver paciência.  Aprendi uma ou duas coisas que podem me ajudar se faltar assunto numa conversa com homens: demão de tinta , reboco, argamassa…

E vou voltando prá minha rotina. Agora, como diria minha decoradora, “Mais monótona do que azulejo branco”.

O programa Falando em Dinheiro é transmitido de segunda à sexta às 15h pela rádio Estadão/ESPN.
Publicado terça-feira, 31 de maio de 2011 às 15:48.

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