Valores Femininos

por Marina Moraes

Sem mixaria.

Programa Falando em Dinheiro - 14/06/2011

Este final de semana, fomos prá Ilhabela onde tenho uma casa. É uma construção modesta, sem grandes sofisticações, mas honesta. Não tem mofo,encanamento entupido, nem falta água, nada daquelas tragédias que a gente conheceu na infancia.  É nossa grande conquista patrimonial, temos enorme orgulho da casa e prazer de estar lá. Compramos contra todos os argumentos da família que, mineiramente, acha praia um horror e morre de pena de quem tem que ir. As conversas em Guaxupé são mais ou menos assim: “A Marcia foi passar uns dias na praia. Foi insistencia do João. Ái, coitada, quanto tempo vai ter que ficar lá?”.  Rompendo mais uma vez as barreiras familiares, das varias que derrubei ao longo da vida com os meus diversos casamentos e viagens a lugares que nevam, por exemplo,comprei a casa e mais do que isso, um barco. Imagine o desgaste. Tem tia rezando por mim até hoje. Na praia, temos uns vizinhos maravilhosos, italianos que vieram para o Brasil há alguns anos e compraram uma marina na Ilhabela. Como manda a tradição, eles cozinham muito bem e sempre nos convidam, talvez porque morram de pena de nos ver carregando todos aqueles congelados para cima e para baixo. Eles levam uma vida simples, mas saborosa. Em todos os sentidos. Vão e voltam de bote para o trabalho, que é a marina. A gente vê os caras saindo cedo e o barulho do bote, pó, po, pó, pó… O mesmo no final do dia. Fazem pesca submarina, caminhadas que atravessam a ilha. Conhecem os melhores restaurantes da cidade, promovem orgias gastronomicas em casa. E quando a gente sente o cheirinho de manjericão e do molho de tomate subindo, ficamos só esperando os gritos acolhedores: “ Marina! Hêlio!”Além do casal, há um senhor, o pai dele, que tem agora 90 anos e é o velho mais charmoso que se possa imaginar. De olhos verdes, sempre elegante de bermuda, crocs nos pés, as vezes um sueter jogado nas costas, mais sem vergonha impossível. Faz charme até para o cachorro. E a gente não resiste. Numa certa altura, o pessoal começou a estranhar os sumiços dele. Saía no meio da manhã e só voltava com o sol baixo para dar um cochilo. Descobriu-se então que esse senhor de andar frágil e que mal fala portugues, estava  frequentando um restaurante sofisticado da Ilha, cuja dona é uma senhora de origem alemã dos seus 70 anos, viuva, simpatica e excelente chef de cozinha. Com o clima rolando entre os dois, ela mandava fazer pratos exclusivos para ele, com ingredientes que os outros clientes nunca provaram. Ele, paladar requintadíssimo, se apaixonou. E passaram a namorar. Discretamente como convem à idade, mas dedicados como também convem a quem não tem mais tempo a perder na vida. Pois nesse final de semana, quando perguntamos sobre o papá Paolo, como o chamamos, soubemos que o casal foi fazer um cruzeiro no Danubio e que na volta vão se casar! Quanta energia!

 Me lembrei do Billy Wilder que disse certa vez que gostaria de morrer com 90 anos e do tiro de um marido ciumento.

O programa Falando em Dinheiro é transmitido de segunda à sexta às 15h pela rádio Estadão/ESPN.
Publicado terça-feira, 14 de junho de 2011 às 10:10.

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