Quatro olhos e nenhuma perspectiva.
Programa Falando em Dinheiro - 22/06/2011
Minha vida anda caótica. E o primeiro sinal disso são os óculos. Comecei a usá-los recentemente e ainda não tenho controle sobre a situação. Quando estou, vamos chamar assim, agitada, perco os óculos. Já mandei fazer uns 12, fiz as contas outro dia. Sempre de 3 em 3 para garantir. Começo com aquele raciocínio: “ Não vou gastar dinheiro com isso, são óculos de leitura, ninguém vai ver” e por aí vai. Aí penso: “É o meu rosto, tenho que caprichar”. Acabo comprando aquelas armações caríssimas, hora quase invisíveis, hora assumidíssimas, bem coloridas. E vou perdendo um a um, deixando dentro do jornal na praia, entre os livros na livraria, na mesa do restaurante. Tenho a maior coleção de caixinha de óculos do mundo. Uso prá guardar outras coisas. Tem uma mais magrinha onde guardo comprimidos na bolsa, por exemplo. Engraçado, sempre tive pena de ver gente que não enxerga direito tateando as coisas atrás dos óculos. Tou quase igual. Na outra agencia onde trabalhei, sempre que encontravam óculos abandonados em locais improváveis, vinha um email para o escritório inteiro dizendo: “Foi encontrado óculos de grau e está guardado na recepção. Se não for da Marina, pode ser seu.”
Uma vez, quando morava em Nova York e trabalhava para um canal de televisão, fiz uma matéria sobre o aniversário de 50 anos do Caetano Veloso que foi comemorado com uma festa em homenagem a ele no jardim das esculturas do Metropolitan. Estava morrendo de medo da pergunta que inevitavelmente teria que fazer a ele, aquele leonino vaidoso: “Como se sentia ficando mais velho?” E surpreendentemente a resposta foi mansa, sem malcriação, ao contrário, ele me disse mais ou menos assim: “A natureza é sábia e nos dá saídas para as dificuldades que vão aparecendo. Eu sempre tive horror à ideia de usar óculos, dessa imagem do velhinho. Hoje, quando me acomodo numa poltrona com um bom livro nas mãos, abro a caixinha e tiro os meus óculos, me sinto o sujeito mais privilegiado do mundo!”
Li em algum lugar que um dos itens mais delatadores da idade são os óculos. Uma vez no supermercado em Guaxupé, percebi que um homem, um senhor, empurrando um carrinho e olhando para mim, como que me reconhecendo. Vi uns traços nele que também reconheci como alguém do meu passado. Eu estava de óculos e me lembrei da tal pesquisa. Tirei os óculos correndo pensando: “Se ele está gordo e careca assim, devo estar igual de outra forma, encolhida pelo tempo e usando óculos.” Mais tarde, minha mãe reclamou que comprei a farinha errada, mas como ela queria que eu lesse o rotulo e fizesse charme para o meu velho amigo ao mesmo tempo? Ultimamente, sem tempo de ir atrás disso, tenho comprado óculos na farmácia. Além de não fazerem bem para a vista porque foram criados para uso temporário, não tem armações de design bacana. São armações farmacêuticas. Francamente, são feias. Me lembro quando era pequena e via o pessoal mais pobre comprando óculos de grau no camelô no centro da cidade e achava tão inteligente! Agora sou “useira e vezeira” como se diz em Minas. Quando o pessoal aqui da agencia me vê com a cara meio torta, assim feito uma figura cubista do Picasso, já sabem que estou atrapalhada e que os óculos de farmácia estão de volta.
E como é difícil carregar os óculos quando eles não estão “trabalhando”. Quem, como eu, precisa só para ler, tira e põe o tempo todo. E é aí que os perco. Me recuso a andar com aqueles barbantes pendurados no pescoço. Se os coloco em cima da cabeça, assim, como que segurando o cabelo, as astes se abrem, alargam, e as lentes ficam sujas da gordura do cabelo. Se penduro na roupa, derrubo cada vez que me abaixo e em seguida piso em cima que é para completar o serviço.
No mundo dos óculos, tudo é meio deprimente. Não é à toa que nos filmes quando o diretor quer mostrar a fragilidade humana, coloca um cara de óculos. Da última vez em que fui comprar armações novas, não conseguia ver direito o que estava experimentando, claro. É preciso contar com o bom senso da vendedora ou assumir a situação e levar um acompanhante.
Publicado quarta-feira, 22 de junho de 2011 às 10:31.
Sônia disse:
27/06/2011 às 18:05
Pois é, querida Marina, eu tenho pensado muito nesse assunto ultimamente porque o braço está ficando curto para a leitura, como diria Gabriel García Marquez. Parece até que andamos conversando, mas, inflizmente, não é verdade. Faz tempo que não nos falamos e sinto muito sua falta no meu dia a dia. Eu me lembro bem de alguns dos inúmeros óculos que você perdeu. Tinha um vermelhinho liiindo… que dó. Pereceu!
Eu ainda tenho aqueles mesmos três (um na cabeceira da minah cama, um na minha mesa de trabalho e um na bolsa. Todos só para evitar aquela dorzinha de cabeça chaaata que dá quando o esforço é prolongado, seja para ler ou para assistir à TV. E olha que eu leio, hein… você é testemunha.
Beijo enorme.
Sônia
Ana Teodoro disse:
13/07/2011 às 16:56
hahaha Marina você está me lembrando a Marilia Gabriela com seus diversos modelos de armações de óculos, tenho um que quando comprei na época achei que era precário, mas já joguei ele na parede várias vezes e nunca quebrou , coitados dos óculos, salvem os óculos ( rs )