As devidas providências.
Programa Falando em Dinheiro - 28/06/2011
Jantei com uma amiga ontem. Ela tem sido minha companheira a vida toda, somos irmãs de alma, comadres. Entramos e saímos de casamentos juntas. Certa vez, quando eu ainda morava em NY, ela estava me visitando e, para o meu desespero, decidiu ali que iria se separar do marido, um amigo querido nosso, meu e do meu marido na época. E por mais que eu tentasse dissuadi-la da ideia, foi do nosso telefone, via DDI, que ele recebeu o cartão vermelho. Ela estava apaixonada por outra pessoa e isso, para o meu ex-marido, foi a gota d’água no seu veredicto para o crime que ela tinha cometido. Um crime duplamente qualificado contra o seu amigo, contra os homens. Ficamos num campo de batalha naquele apartamento, eu de um lado contemporizando, tentando acalmá-la para o que ela enfrentaria na volta para o Brasil. Ele de outro, no telefone, botando fogo no amigo de ego machucado. Dava conselhos e sugestões maquiavélicas de vingança contra ela como se tivesse a maior experiência do mundo nas questões divorciais. O fato é que depois de um dia e uma noite mal dormida, muito vinho e choro, algumas compras que ninguém é de ferro, coloquei minha amiga no avião. A separação foi do tipo silenciosa. Há vários tipos: a barraqueira, a fingida, a honesta de peito aberto e tem essa, a da pessoa que decide não discutir. E essa também é enlouquecedora porque você não pode se defender da acusação que fica no ar. Minha amiga disse que chegando do aeroporto, o ex-marido a recebeu educadamente, tomou banho, se vestiu calmamente e foi trabalhar. Só pediu para que ela saísse de casa antes que ele voltasse, já que era ela que estava insatisfeita. Ela fez as malas e foi para um hotel. Algum tempo depois, quando já estava com a vida mais organizada, tinha alugado um pequeno apartamento, eu vim passar férias no Brasil e ela me pediu para ir até o antigo apartamento “resgatar” umas coisas porque na correria não tinha levado quase nada. Imediatamente topei a missão. Fomos até lá durante o dia, aproveitando que ele estava no trabalho, puxando uma mala grande e disfarçando, como quem transporta um corpo esquartejado. Passamos pelo porteiro que reconheceu minha amiga e sorriu. Vencido o primeiro obstáculo, corremos para o elevador e subimos eufóricas. Ela tira o molho de chaves que carregou durante os muitos anos de casamento, separa a chave que conhecia tão bem, enfia na fechadura, gira e…nada. Tenta novamente. Nada. Não é que ele tinha seguido a instrução do meu ex-marido e trocado a fechadura? Nos olhamos e tivemos um ataque de riso desses de nervoso, de velório, e ficamos sentadas no chão do lobby, com a mala ao lado, rindo sem parar. Depois, seguimos para uma lanchonete ali perto e, de novo, só de nervoso, comemos sanduiches gigantes, tomamos milk shake, enchemos a cara. Isso foi há muitos anos. Ontem à noite quando nos encontramos, fizemos um brinde aos casamentos que vieram depois e ao nosso aprendizado nos descasamentos que se seguiram. Nunca mais permitimos a amizade entre os nossos maridos.
Publicado terça-feira, 28 de junho de 2011 às 15:34.
Ana Teodoro disse:
13/07/2011 às 16:50
Amo final feliz !!
saudades marinaaaa