Menos mãe, por favor
Programa Falando em Dinheiro - 26/07/2011
Uma pesquisa da University College London feita ao longo de 5 anos entre cerca de 12 mil famílias inglesas, mostrou que as crianças pequenas não são prejudicadas emocionalmente pelo fato das mães trabalharem fora. E mais, parece que as meninas se saem inclusive melhor do que a media quando crescem numa casa em que a mãe trabalha. São meninas menos agressivas, hiperativas ou manhosas no ambiente social, e menos infelizes, choronas ou angustiadas em casa. Isso, é claro, desde que a mãe não passe um numero exagerado de horas fora de casa e que consiga equilibrar seu tempo entre as duas coisas. A pesquisa mostrou também que o cenário ideal para o desenvolvimento de criancas saudáveis e’ ter os pais morando juntos e ambos trabalhando.
Copiei e colei o artigo publicado no The Guardian e enviei para as minhas 3 filhas dizendo que elas não tinham desculpa para não irem bem na escola, não cumprirem seus deveres em casa ou não serem criaturas bem humoradas e equilibradas.
Apenas a mais nova, de 12 anos, respondeu de seu blackberry, de dentro de um ônibus a caminho de Guaxupe’ para onde estava indo de ferias ficar com os avós. “Acho que entendi mãe, quer dizer que mães que trabalham tem menos problemas com os filhos, ne’? “, ela respondeu. Como o texto era em inglês, dei um desconto. “ Mais ou menos, Laura. A pesquisa diz que os filhos não são prejudicados por isso. Mandei para você se animar a perseguir uma carreira bacana e quando for mãe não ficar em casa “por conta do a toa”, como se diz em Minas, ou no shopping peruando. “ E assinei: da sua mãe que trabalha fora.
Ela analisou e completou o raciocínio: “Deve ser por isso que a Debora levou uma surra de chapinha da mãe outro dia e que a Juliana e’ totalmente bipolar. As mães delas não trabalham fora.” Ainda tentei levantar o nível, mas ela seguiu : “Eu me dei bem porque você esta’ sempre na agencia. As outras reclamam que não podem fazer nada sossegadas, que as mães controlam o uso do celular e do computador. deve ser horrível ter mãe o tempo todo em casa.”
O artigo não explicou exatamente porque a ausência da mãe não e’ prejudicial. O jornal deve ter ficado tão ansioso para avisar a mulherada da redação que não se preocupassem com os filhos e que continuassem ralando ali que nem se estendeu no assunto. Minha mãe sempre trabalhou e eu morria de inveja das amigas que tinham mãe fazendo bolo e ajudando na lição de casa. Tinha uma que era o meu sonho de consumo. A dona Teresinha era carente e queria a gente sempre por perto. De família rica do interior, achava bobagem a gente estudar muito e sempre que podia arrumava um jeito da gente faltar nas aulas de inglês depois da escola. Dizia que sabia ler as cartas. Se vestia com um turbante na cabeça e um roupão de seda e virava madame Zoraide, a vidente. Lia a sorte da gente no baralho. Depois que garantia casamento bom para todas, a filha dela e nós as amigas, levava a gente para tomar sorvete. Na época, ela era budista. Me lembro que colocava comida no altar e ficava rezando alto. Ia em excursões ao Japão. Agora dizem que está católica e que vai a Jerusalém todo ano.
A pesquisa diz que as meninas, filhas de mães que trabalham, são independentes e seguras. Não tenho dúvidas de que nesse mundo machista em que vivemos, os meninos se ressentem do fato de ter a mãe fora de casa. Quem vai fazer lanchinho do jeito que eles gostam, recolher os tênis pela casa, arrumar o quarto, checar a febre e todos os outros sintomas de doenças que eles NÃO tem e que precisam ser imediatamente tratados? Com o resultado da pesquisa em mãos, as mães de meninos deveriam repensar a educação deles levando em conta não só a infelicidade desses seres mimados, mas no desgaste das mulheres com quem eles vão se casar ali na frente.
Publicado terça-feira, 26 de julho de 2011 às 19:04.