“Assim é se lhe parece”, Pirandello
Programa Elas & Lucros - 01/03/2011
Dei de presente para o meu pai a biografia do pintor Chagall ( Marc) cuja história, sem trocadilhos, tem tons fortes. Judeu russo, atravessou as duas Grandes Guerras e sofreu com o nazismo na Europa. Ainda assim, em seus quadros, as imagens que mostram as atrocidades da guerra foram equilibradas por símbolos de esperança. Meu pai devolveu o livro alguns dias depois dizendo que não o leria porque não gostava do trabalho de Chagall: “Ele rouba no jogo. Se faz de ingênuo, de inocente.” Só entendi porque conheço meu pai. Adoro os quadros de Chagall e mesmo que não gostasse, leria a sua biografia. Paciência.
Meu pai é uma criança manhosa. Sempre foi assim. Na Páscoa, se os nossos ovos fossem maiores que o dele, emburrava. Minha mãe tinha que comprar tudo igual. E ainda no ano passado, na noite de Natal, peguei um rabo de conversa em que ele reclamava que os adultos não tinham nada para brincar no dia seguinte do Natal. O que, no caso dele, é uma mentira e uma ingratidão muito grande. Sabendo como é a criatura, temos o cuidado de procurar um presente com que ele possa se divertir e não simplesmente uma camisa ou uma calça que está precisando e que minha mãe insiste em nos recomendar já com a numeração, as medidas e tudo. Ele ganha uma almofada em formato de elefante que vem com porta-controles de tv na tromba. Ganha abajur com corpo de vaca que acende quando se balança o rabo. Ganha tinta, pincéis, material de marcenaria. Eu mesma dei para ele um carneiro lindíssimo de pernas longas, tamanho natural, e está lá na sala, tomando conta dos porta-retratos, o que deixa minha mãe de mau humor. Não basta para o menino. Ele chega na mesa e diz: “Marina, sua mãe não quer me deixar pendurar aquela cabeça de ornitorrinco ( ou qualquer outra coisa) que você me deu. Diz que é para levar para o quarto”. Eu: “Ái, mãe, a cabeça fica bonita na copa, ao lado do filtro, como ele quer. Deixa…”
Meu pai sempre gostou muito de animais. Tivemos muitos cahorros. Não um de cada vez, muitos ao mesmo tempo. Aos sábados, meu pai entrava no chuveiro com a cachorrada e depois ia liberando um por um. Eles chegavam na cozinha, na frente da minha mãe e se sacodiam para se secar. Por ultimo vinha meu pai, bem cheiroso. Aí ela perdoava. Tivemos, macacos, gatos, hamsters, aquários enormes, papagaios e até um jacaré que a empregada matou a vassouradas. Mas ele sempre gostou mesmo de aves. Fazia experiências genéticas na fazenda. Misturava pato com ganso, galinha com pavão. Vendia, trocava. Ainda o faz, agora mais sofisticadamente pela internet. Compra e vende
animais, troca informações, aprendeu uma receita de biscoito pros cachorros e faz fornadas e fornadas para eles.
As crianças dizem que ele é invejoso. Toda vez que um neto ganha um bicho, ele fica louco e arruma um igual. Agora mesmo, lembram-se do gatinho da minha filha, o Meio-Quilo? Primeiro ele disse que o gatinho era magro, horroroso, depois ficou desesperado quando a viu se divertindo e conseguiu um igualzinho para ele. Chama-se Meu Guri.
Meu pai sempre ficou à vontade nesse universo animal. Em toda foto dele há um bicho. Tem uma nojenta, que as crianças amam, em que ele está beijando a mula da fazenda na boca. Não respeita nada. Pintou sobrancelhas nos cachorros galgos, que dizia se parecerem com figuras de Midigliani, só faltando as sobrancelhas finas. E sempre que é cobrado por alguma incoerência ou heresia, defende-se com o argumento de que “ Isso é subjetivo” ou “ Tudo é questão de ponto de vista”.
Só meu pai, católico de vela acesa no quarto, enriqueceria o presépio da família colocando entre os reis magos, bonequinhos como o Snoopy, a Hello Kitty ou o Shrek, que ele roubou dos netos. Só ele para pendurar o Papai Noel gay cheio de purpurina que eu trouxe de Londres e que rebola quando se abre a porta.
Porque será que tendo um pai livre como esse, que se permite tanta coisa, eu nunca acreditei que era possível ser diferente e dar certo? Passei a vida toda tentando ser certinha e por isso, inatacável. Só muito recentemente baixei a guarda. A melhor coisa do mundo é a gente se aceitar como é, acreditar, apostar no que somos e ainda, se possível, ganhar dinheiro com isso.
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