Valores Femininos

por Marina Moraes

“Assim é se lhe parece”, Pirandello

Programa Elas & Lucros - 01/03/2011

Dei de presente para o meu pai a biografia do pintor Chagall ( Marc) cuja história, sem trocadilhos, tem tons fortes. Judeu russo, atravessou as duas Grandes Guerras e sofreu com o nazismo na Europa. Ainda assim, em seus quadros, as  imagens que mostram as atrocidades da guerra foram equilibradas por símbolos de esperança. Meu pai devolveu o livro alguns dias depois dizendo que não o leria porque não gostava do trabalho de Chagall: “Ele rouba no jogo. Se faz de ingênuo, de inocente.” Só entendi porque conheço meu pai. Adoro os quadros de Chagall e mesmo que não gostasse, leria a sua biografia. Paciência.

Meu pai é uma criança manhosa. Sempre foi assim. Na Páscoa, se os nossos ovos fossem maiores que o dele, emburrava. Minha mãe tinha que comprar tudo igual. E ainda no ano passado, na noite de Natal, peguei um rabo de conversa em que ele reclamava que os adultos não tinham nada para brincar no dia seguinte do Natal. O que, no caso dele, é uma mentira e uma ingratidão muito grande. Sabendo como é a criatura, temos o cuidado de procurar um presente com que ele possa se divertir e não simplesmente uma camisa ou uma calça que está precisando e que minha mãe insiste em nos recomendar já com a numeração, as medidas e tudo. Ele ganha uma almofada em formato de elefante que vem com porta-controles de tv na tromba. Ganha abajur com corpo de vaca que acende quando se balança o rabo. Ganha tinta, pincéis, material de marcenaria. Eu mesma dei para ele um carneiro lindíssimo de pernas longas, tamanho natural, e está lá na sala, tomando conta dos porta-retratos, o que deixa minha mãe de mau humor.  Não basta para o menino. Ele chega na mesa e diz: “Marina, sua mãe não quer me deixar pendurar aquela cabeça de ornitorrinco ( ou qualquer outra coisa) que você me deu. Diz que é para  levar para o quarto”. Eu: “Ái, mãe, a cabeça fica bonita na copa, ao lado do filtro, como ele quer. Deixa…”

Meu pai sempre gostou muito de animais. Tivemos muitos cahorros. Não um de cada vez, muitos ao mesmo tempo. Aos sábados, meu pai entrava no chuveiro com a cachorrada e depois ia liberando um por um. Eles chegavam na cozinha, na frente da minha mãe e se sacodiam para se secar. Por ultimo vinha meu pai, bem cheiroso. Aí ela perdoava. Tivemos, macacos, gatos, hamsters, aquários enormes, papagaios e até um jacaré que a empregada matou a vassouradas. Mas ele sempre gostou mesmo de aves. Fazia experiências genéticas na fazenda. Misturava pato com ganso, galinha com pavão. Vendia, trocava. Ainda o faz, agora mais sofisticadamente pela internet. Compra e vende

animais, troca informações, aprendeu uma receita de biscoito pros cachorros e faz fornadas e fornadas para eles.

As crianças dizem que ele é invejoso. Toda vez que um neto ganha um bicho, ele fica louco e arruma um igual. Agora mesmo, lembram-se do gatinho da minha filha, o Meio-Quilo? Primeiro ele disse que o gatinho era magro, horroroso, depois ficou desesperado quando a viu se divertindo e conseguiu um igualzinho para ele. Chama-se Meu Guri.

Meu pai sempre ficou à vontade nesse universo animal. Em toda foto dele há um bicho. Tem uma nojenta, que as crianças amam, em que ele está beijando a mula da fazenda na boca. Não respeita nada. Pintou sobrancelhas nos cachorros galgos, que dizia se parecerem com figuras de Midigliani, só faltando as sobrancelhas finas. E sempre que é cobrado por alguma incoerência ou heresia, defende-se com o argumento de que “ Isso é subjetivo” ou “ Tudo é questão de ponto de vista”.

Só meu pai, católico de vela acesa no quarto, enriqueceria o presépio da família colocando entre os reis magos, bonequinhos como o Snoopy, a Hello Kitty ou o Shrek, que ele roubou dos netos. Só ele para pendurar o Papai Noel gay cheio de purpurina que eu trouxe de Londres e que rebola quando se abre a porta.

Porque será que tendo um pai livre como esse, que se permite tanta coisa, eu nunca acreditei que era possível ser diferente e dar certo? Passei a vida toda tentando ser certinha e por isso, inatacável.  Só muito recentemente baixei a guarda. A melhor coisa do mundo é a gente se aceitar como é, acreditar, apostar no que somos e ainda, se possível, ganhar dinheiro com isso.

Publicado terça-feira, 1 de março de 2011 às 16:30.
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Nem morta!

Programa Elas & Lucros - 16/02/2011

Já não agüento mais esse clima maluco. Ontem mesmo foi um daqueles dias que os americanos, que têm mania de classificar tudo, chamam de “ bad hair day”. Em português, “um dia para não se marcar um encontro com quem você precisa impressionar”.  Mas eu tinha um compromisso, precisava dar um jeito no cabelo e fui ao salãozinho bem em frente ao escritório. A mulher/ homem que me atendeu, me lembrou aquele índio do filme “Um Estranho no Ninho”, com o Jack Nicholson, o gigante mudo, colega do Nicholson no hospício.  O do salão também era um tipo enorme, de cabelo alisado e corte estilo Chanel, num uniforme branco, calça e jaleco. Mudo, como o do filme. Com um gesto me apontou a pia. Enquanto esfregava a minha cabeça, tentei adivinhar pelo toque se era homem ou mulher mas não consegui. Estava delicioso demais e eu me desconcentrei da minha investigação. Na hora de secar, comecei a explicação de sempre: “Querido/da, eu queria uma coisa mais natural. Nada de escova muito lisa, mas também não cheio de cachinhos. Gostaria das pontas viradas para fora atrás e para dentro na frente…” e ele/ela me interrompeu , entregou o secador e com poucas palavras pediu que eu mesma terminasse.  Saí de lá arrumadinha para o dia quando a chuva caiu. Corri para atravessar a rua, mas não o suficiente para escapar da água e voltei para o escritório, talvez por castigo divino, com a cara do índio gigante do salão, numa versão encolhida, claro.

Mas isso não é nada perto das coisas horríveis que podem nos acontecer nesse departamento. O Paulo Francis mesmo, às vezes aparecia com o cabelo verde para gravar na Globo, em Nova York. Tinha errado na tintura. Não era exatamente tintura, mas aquele produto que se passa para o cabelo branco ficar mais bonito. Nesses dias ele dizia que estava “cansado de se parecer com os terráqueos…”

Eu já entrei no ar, ao vivo, na TV Cultura, com um clips gigante segurando a franja. O pessoal do estúdio fazia gestos que eu não entendia. Suspeitava que havia algo errado com o guarda rodoviário que estava entrevistando e fazia caretas que certamente pioraram a cena. O policial não achou nada demais, deve ter visto coisa muito pior nas estradas.  O que me consola é que sou da geração pré Youtube.  Não caí nas redes. Nem com o clips no cabelo, nem no dia em que apresentando o Jornal da Cultura, me confundi e anunciei que Mikhail Gorbachov dançaria em homenagem à estatua da liberdade quando deveria dizer Mikhail Baryshnikov, claro.

Mas voltando às questões capilares, outro dia, a discussão entre nós, a turma de sempre, era se deveríamos parar de tingir os cabelos brancos ou não. Uma amiga disse que estava cansada dessa função de a cada 15 dias ter que gastar um dinheirão e ficar duas horas no salão para sair com a mesma cara que entrou, menos um dedo de raiz branca. Que achava digno,bacana, a atitude dessas mulheres que estão assumindo o grisalho. Que achava moderno. Fiquei histérica. Porque não sou exageradamente vaidosa, mas cabelo branco é o meu limite. Tenho até um trato com minhas irmãs : se eu entrar em coma ou coisa parecida e ficar padecendo no hospital, uma delas tem que entrar com a tinta e o pincel e fazer o serviço. Se eu acordar cinco anos depois com a cabeça branca, não vou perdoá-las. Se morrer assim então, elas vão arder no fogo do inferno. Propus imediatamente um pacto para momentos de fraqueza como esse que minha amiga estava enfrentando. Que nós, amigas de longa data, deveríamos ter liberdade para fazer uma intervenção daquelas que se faz com drogados, juntar todo mundo, pegar de surpresa a pessoa que se recusa a pintar o cabelo e convencê-la de isso está inclusive queimando o nosso filme, prejudicando mulheres da mesma faixa etária que não querem ser identificadas com essas coroas. Uma outra reforçou: “Imagine, eu pinto cabelo, sobrancelha e todos os pêlos do meu corpo que teimarem em ficar brancos”.

Esse é um assunto para ser discutido apenas neste fórum de cumplicidade. Meu marido já foi instruído e não erra mais. Quando digo que vou tingir o cabelo, ele não faz nenhum comentário, nenhuma observação, nem um olhar diferente. Porque  se responder: “Já vai tingir de novo? Não está precisando ainda”, é um homem morto.  Ou não prestou atenção direito ou é relaxado comigo e não faz questão de que eu pareça perfeita como, de fato, sou. Se disser: “Vai sim, meu amor”, estará atestando que  viu meus cabelos brancos e concorda que estou horrorosa. Está morto novamente.

Certo está o povo em Guaxupé que tem outras prioridades. Veja o caso da minha mãe que foi ao salão instalado no quintal da Maria para tingir o cabelo. Quando a cabelereira terminava de aplicar a tinta, a campainha tocou e uma voz surgiu lá do portão:  “Maria, vamos na Santo Antonio?” E a Maria avisou minha mãe: “ Eu vou até a igreja fazer a novena com o pessoal. Você fica aí à vontade que em 40 minutos eu volto para lavar a sua cabeça.” E foi.

Publicado quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 às 17:01.
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Às vezes, no fim da´tudo errado

Programa Elas & Lucros - 11/02/2011

Fui convocada para organizar um evento para a agencia. E como sempre, entrei em pânico. A angústia das festas sempre me assombrou e ironicamente me tornei responsável, também por elas, profissionalmente. Tenho o pressentimento de que os convidados não vão aparecer, de que vai ser um fiasco. A minha euforia quando constato que tem gente suficiente, de que a festa efetivamente está rolando, é tão exagerada que ninguém entende. É uma alegria desmedida. Porque só eu seu sei do que escapamos.

A idéia de promover uma festa, na verdade, não foi do meu chefe. Foi de algum desavisado com poder no escritório. Porque meu chefe, graças a Deus, ainda que por razões diferentes, também é contra esses encontros sociais mandatórios. Toda vez que fui obrigada a sugerir uma coisa dessas ele deu o contra: “Marina, não inventa. Ninguém quer isso. As pessoas estão ocupadas, querem ir para casa descansar, o trânsito e’ um inferno… Você manda o convite e imediatamente cria um problema para o cara: ou ele se aborrece porque tem que vir ou porque terá que achar uma desculpa para não aparecer, fica aquela saia justa. Vamos passar.”

Meu problema não é desagradar as pessoas com o evento mas é conviver com um possível desastre.

Não é verdade que ” no fim dá tudo certo” . No fim é o fim, portanto, seu sofrimento não será eterno, mas`as vezes, as coisas dão sim, muito errado. Eu sempre tive trauma das festinhas das minhas filhas quando ainda eram pequenas, porque eu achava que não viria ninguém. E não sossegava enquanto não via a casa cheia. Por isso, todo lançamento de livro de amigo, sou a primeira a chegar que é para ele se distrair e achar que vai ter movimento. Tento fazer barulho, gesticular bastante, parecer que sou muitas. Fico nervosa e saio falando feito doida para preencher os espaços vazios. Meu terapeuta, já falecido, que Deus o tenha, me proibiu de manter esse cacoete de ansiedade. “Se der um branco na conversa, aquela situação idiota num jantar, por exemplo, o problema não é seu. Fique calada.” Só eu sei quantos desastres sociais já salvei ou pensei que salvei, mantendo esses diálogos sózinha. Eu mesma falo e respondo, sabe como e’? Você pergunta como quem está filosofando: “A vida anda muito difícil, não é?” Alguém concorda so´mexendo a cabeça e eu mesma respondo concluindo o raciocínio: ” Não se tem tempo para mais nada…” E às vezes, faço uma careta ou uma observação baixinho para esticar o lance.

 Alguém já foi a uma festa surpresa em que, além do surpreendido e da mulher dele que organizou MAL a coisa, só apareceu você? Pois aconteceu comigo. E o pior é que o cara nem era muito amigo. Era amigo de um amigo e eu só fui porque iríamos sair depois. Cheguei cedo, claro, o apartamento estava todo decorado com balões e fitinhas coloridas, havia uma faixa de ” Feliz Aniversário” atravessando a sala e o casal conversando. Ficamos batendo papo um tempo e nada. A campainha não tocava. A mulher dele me olhava aflita e ele bebia, falava besteira, dava risada. Eu ali, só aumentando o constrangimento. À uma certa altura, ele desabafou: “Vamos falar a verdade, o que está acontecendo aqui? Esse merda de festa! Estou fazendo papel de idiota! ” E foi só palavrão. A culpada era ela, tadinha, que foi ofendida de todas as formas. O pior é que era mesmo. Para que inventar essas coisas?

Uma outra conhecida, no aniversário de 50 anos do marido, não só preparou uma festa surpresa como À FANTASIA! Diz ela que foi maravilhosa. Essa eu perdi porque, como ja’ disse, só vou a coisa que não dá certo. Contou com detalhes que mandou entregar uma fantasia para ele em casa quando, desavisado, assistia o Jornal Nacional de pijama. A caixa trazia instruções que ele seguiu rigorosamente. Vestiu-se de Elvis, seu personagem preferido, e seguiu para o salão onde cerca de 300 pessoas devidamente fantasiadas, ela de diaba vermelha super mal intencionada, esperavam por ele. Lá em casa isso virou piada e sempre que alguém quer fazer uma ameça, diz: ” Olha que eu faço para você uma festa surpresa e À FANTASIA, hein?”

Me lembro de uma vez, quando trabalhava na TV Cultura e recebemos uns convites para o show de um dos colegas ali da redação. Nas horas vagas ele era músico ou vice versa e iria se apresentar num teatro bem bacana. Combinamos que todos iríamos depois do trabalho. Fui para casa antes, tomar um banho e me arrumar. Estranhei não ver carro nenhum na porta, mas agourento que e’ agourento não desiste nunca. A porta do teatro enorme, de madeira pesada, estava fechada e tive trabalho para abrir. Fez um barulho: “E’e’e’e’e’e’e’e’” . Suficente para o meu amigo, que cantava de costas no palco para absolutamente ninguém, se virar e me ver. Ainda pensei em fugir mas já era tarde demais. De violão  em punho, sorriu pra mim e continuou cantando. Me acomodei numa cadeira logo na frente e ainda fiquei dançarolando, acompanhando o ritmo da música com a cabeça só para disfarçar. No final do que me pareceram dez horas de show, bati palmas, mandei beijos e fui embora. No dia seguinte, eu não mexia o pescoço de tanta dor por causa da tensão durante aquele tempo todo. E ele, o artista, eternamente grato, nunca mais olhou para mim do mesmo jeito.

Bem, eu estou só desabafando, buscando solidariedade. Vou organizar a tal festa e deixar uma kombi cheia de figurantes na rua de trás para o caso de faltar gente.

Publicado sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 às 7:51.
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Meio Quilo

Programa Elas & Lucros - 01/02/2011



Vou dar uma dica de férias para quem e’ mãe, uma pena que so’ descobri agora no finalzinho. Fomos a Guaxupe’ e como acontece a vida inteira, as crianças se encantam com um bicho qualquer na fazenda, um pato, um marreco, um cachorro e querem trazer para São Paulo. Você explica que o animal vai sofrer, que vai se suicidar no apartamento, não sensibiliza ninguém. Depois abre o jogo e diz que voce e’ que vai morrer, que vai se suicidar se o bicho ficar em casa, mas também não convence os monstrinhos  que juram pela” minha” vida que vão cuidar, limpar, etc, quando todos sabemos que isso jamais vai acontecer. E a viagem de volta e’ invariavelmente péssima, todo mundo emburrado como se isso invalidasse tudo o que de legal aconteceu ate’ agora. Porque criança e’ assim, você vai para a Disney, fica no melhor hotel, enfrenta fila, sol, calor, chuva, anda em todos os brinquedos. Na hora de ir embora, já no aeroporto, você se recusa a comprar um chicletes e tem que ouvir a malcriação de que e’ um monstro egoista.

Desta vez, não sei se foi o calor que amoleceu meu coração, se foi culpa porque eu andava felizinha e a religião mineira nos proibe de sermos felizes. Num momento de fraqueza, autorizei a vinda de um gatinho horroroso que minha filha mais nova achou no quintal da caseira na fazenda que, por sua vez, o havia encontrado, abandonado na beira da estrada com apenas alguns dias de vida. O gatinho era magro que so’ ele, parecia feito de arame com aquele rabo fino todo torto e tinha orelhas enormes, como um morcego ou um Inca Venuziano, ser extraterrestre do Nacional Kid, lembra? O pêlo era cinza e por isso parecia ralo, achamos que tinha uma doença de pele/pêlo qualquer.  E minha filha veio com aquele bicho horrivel que batizou de Pretinho e nós chamamos de Meio Quilo porque era o que ele pesava, 500 gramas. Enquanto ela carregava compenetrada a caixinha no colo no banco de trás do carro, eu seguia pela Anhanguera pensando: ” Não vai durar nada, vou me livrar desse Filho de Francisco muito rápido.”  Ainda que feio, pobre, orfão, caipira, sujo, achei que merecia uma consulta no veterinário, afinal, tenho religião. Fiquei constrangida na ante-sala com aquele arremedo de gato no colo como se fosse a mãe de um bebê feio. Paguei jurando que o diagnóstico seria terrivel, mas devia ter combinado o jogo com o veterinário que, para fazer charme para minha filha e arrancar meu dinheiro, elogiou a saúde do bichano, garantiu que não tinha pulgas nem vermes ( mesmo assim nos vendeu medicamentos para os dois eventuais invasores) e  o devolveu avaliando que pelo seu desenvolvimento, tinha pouco mais do que 30 dias.

Agora, ele ja’ vale mais ou menos uns 300 reais se somarmos a comida, caixinha de areia, areia perfumada, vasilha para comida, para água, bolsa para transportá-lo ( e isso nós compramos ali mesmo na pet shop convenientemente instalada ao lado da clinica veterinária, porque o gatinho, assustado com o passeio, se agarrou no pescoço da minha filha como uma ventosa e quase lhe rasgou a jugular). Fora a consulta, vitaminas, remédios e tudo mais.

Mas  Meio Quilo foi ficando, aquela coisinha humilde,  fazendo farra com qualquer pedacinho de papel, satisfeito com um punhadinho de comida, duas lambidas na água, fazendo xixi e cocô na caixinha de areia desde que chegou. E de tão pequeno, ainda não mia, o que e’ a sua maior qualidade. Temos que ficar muito espertos para ele não se enfiar nalgum lugar e ficar preso porque  sem o miado, não da’ para localizá-lo.  E há o agravante de termos outras duas gatas mais velhas, duas tias solteironas, castradas, que não suportariam a alegria, o bom humor desse jovem desastrado que vive de coração aberto achando que ganhou na loteria porque foi recolhido na estrada de terra em Guaxupé e vai se educar em São Paulo. Decidimos, então, que ele deve ficar preso no quarto da minha filha ate’ crescer um pouco mais. E ja’ são 15 dias de absoluta paz em casa. Sozinha ou acompanhada das amigas, minha filha passa o dia inteiro trancada la’ dentro com o  gato de onde so’ sai, suada e arranhada da cabeça aos pés, para comer. Faz fotos dele o tempo todo, manda para os amigos, morre de rir das suas trapalhadas, esta’ no céu. Paguei a minha lingua, por esse meio quilo de sossego eu não esperava.

Publicado terça-feira, 1 de fevereiro de 2011 às 8:05.
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Os des(encontros) da vida

Programa Elas & Lucros - 19/01/2011

Vinicius de Moraes dizia : “A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros nessa vida.”  E devia acreditar mesmo, sabemos de pelo menos oito encontros oficiais e os consequentes sete desencontros… Pensei nisso outro dia quando uma amiga desabafou sobre a sua desesperança de voltar a ter uma vida amorosa. Resumiu sua história afetiva recente numa serie de ” desencontros e frustrações” . Ela me perguntou se deveria desistir e antes que eu dissesse qualquer coisa, respondeu : “Não! Seria triste demais chegar a esta conclusão”. Esta minha amiga já foi abandonada de quase todas as formas possíveis, em todas as situações, com direito a desculpa esfarrapada ou silencio absoluto. Pior é que a gente dá muita risada, acho que de nervoso, como em velório.  Da última vez foi assim: “Sabe o fulano de tal, diretor de tal empresa, divorciado, etc?” ” Sei”. “Tá arrastando a maior asa prá mim”. “Puxa, é mesmo?”  “E’. Marcamos um encontro hoje naquele hotel chiquérrimo aqui em São Paulo. Ele mora em Curitiba, lembra?”

Fiz que sim. Mais tarde, ela ligou novamente. “Estou aqui  na banheira, montei um clima super romântico, velas, flores, estou tomando um vinho branco e esperando por ele.”  ”Ai, que legal!  Bom, me conta amanhã como foi. Boa sorte”. Uma hora depois, ela de novo no telefone: “Ele esta’atrasado, ligou do aeroporto”. “ Ok, mas vem vindo, não é?” “ Claro! Abri a segunda garrafa de vinho e talvez eu saia um pouco da água porque já estou toda enrugada.” “Faça isso, querida. Se embrulha num roupão, também fica sensual. Falamos amanhã. Aproveite. ” Duas horas depois,  já em casa e pronta para dormir, toca o telefone, é ela. E aí vem o nosso ataque de riso: “Marina”, diz com a voz já meio pastosa,  “ele não apareceu nem atende o celular. Eu tinha esperança de que o avião tivesse caído, mas nada. Está vivo e forte em algum outro lugar. Vou ter que pagar a conta e sair amanhã cedo.  Mais uma vez. ” A gente ri para não chorar.

Eu também já tomei uns foras, que poderiam ser chamados de desencontros, se a gente quisesse fazer poesia disso.  Teve uma vez que um rapaz bem bonitinho, objeto de desejo da redação inteira, me convidou para sair. Já havia um clima entre nós e quando contei para a mulherada do jornal, foi aquela gritaria: ”É hoje!!!” Ele era um príncipe: educado, gentil,  tinha até uma fofoca de que quando ela viajava para fazer matéria, levava um pijaminha na mala. Me convidou para irmos ver um show de musica brasileira na boate de um hotel bacana. Jantamos, vimos o show, dançamos de rostinho colado, trocamos uns beijos, a coisa foi esquentando e ele sugeriu: “Vamos subir e ver se tem quarto para a gente ficar aqui?” Eu não estava preparada, um homem que dorme de pijama deve querer uma mulher que dorme maquiada, sei lá. Fiquei nervosa, mas não era uma oportunidade para se perder. Topei.  Morrendo de vergonha, atravessei o saguão de mãos dadas com ele, tentando me esconder dos caras da recepção. Ele pergunta para um deles: “Vocês tem um quarto para hoje?” “Temos sim”. “E quanto é?” Quando o rapaz do hotel falou o valor, ele levantou a voz exaltado: “Quanto? Você tá brincando! Ah,  não vai dar. Vamos embora.” E saiu bravo, reclamando do abuso do preço. Eu muda atrás, só pensando: burra! Bem feito!Quem mandou fazer o que não deve!

Ele ainda queria parar para tomar um café, mas fiz questão de ir embora para não chorar ali. No dia seguinte, lá estavam elas, as colegas,  na maior expectativa: “E aí? Como foi?Conta tudo!” Tive que desapontar a torcida descrevendo o sapo em que o nosso príncipe tinha se transformado.

Fico impressionada com as adolescentes de hoje, que vivem suas emoções coletivamente na internet sem nenhuma distinção do público e do privado. A minha filha de 12 anos, arruma namorado, dá e leva fora, tudo em grupo. Todo mundo participando, dando palpite, aquela falta total de privacidade. Outro dia, ela estava eufórica porque ficou sabendo pelo MSN que a amiguinha tinha “ficado” com um menino numa baladinha e  que estavam namorando.  Trocaram centenas de posts, mensagens , recados, fotos, tudo o que eles tinham direito para divulgar a notícia.  Foram menos de 12 horas de alegria. No dia seguinte, a amiga contou, no MSN, que levou o fora quando eles se encontraram no clube pela manhã. À noite ele gostou dela, mas à luz do dia, descobriu que havia se enganado . E isso é dito sem  constrangimento, com a maior naturalidade. Num outro momento, minha sobrinha de 11 anos, perguntou para um menino, também via internet à vista de centenas de testemunhas, se ele gostava dela (para namorar ) e a resposta veio sem rodeios: estou entre você e a Julia, do Pentágono.

A maior parte dos desencontros não tem consequencia. A vida é feita dos encontros, dizia com razão o Vinicius. Mas algumas histórias poderiam ser escritas a partir de tudo o que não deu certo, do que não rolou e do que a gente fez diante disso. Como a jornalista e roteirista Nora Ephron ( When Harry met Sally, Sleepless in Seattle…) que registrou o episódio de quando o marido a traiu no livro Heartburn, que depois virou filme de sucesso com Jack Nickolson e Meryl Streep. Tudo é uma questão de angulo.

Publicado quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 às 16:19.
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Pecados natalinos

Programa Elas & Lucros - 07/12/2010

Eu e minha irmã, Beatriz, fomos às compras de Natal no sábado à tarde. E ainda levamos uma filha cada. Programa de mulher sem juízo. Enquanto os maridos tiram um cochilo, a gente se estressa na rua. Mas isso é só aparência, estereótipo que a gente cultiva. Na verdade, mal entramos no carro e já estamos absolutamente felizes e animadas com a perspectiva de algumas horas sem chefe, sem cliente, sem obrigações. Porque os presentes a gente compra enquanto conversa, come, dá risada, faz fofoca.  Escolhe coisa bacana para quem gosta e coisas horrorosas para os chatos. Roupa tamanho  gigante para uma prima metida que acabou de ter bebê: “Ela não está deste tamanho, Beatriz.” “Claro que está. Você não a viu de costas.” Panetone integral sem açúcar para a professora que tratou mal a nossa criança. E a cada descoberta é aquela gritaria: “Vem ver o que eu achei ! Isso aqui é a cara da mamãe! “, de pura maldade porque é uma blusa com furos enormes nas costas que nem ela nem ninguém jamais vai usar. E depois a gente morre de rir. É o verdadeiro espírito natalino.

As crianças acompanham distraídas achando que vai sobrar alguma migalha para elas no meio de tantas compras. De vez em quando a gente se lembra delas e volta para resgatá-las perdidas entre as araras. É preciso ficar de olho.  No sábado, descobrimos, tarde demais, que elas tinham roubado uns mini papais-noéis de uma loja enquanto nós pagávamos do outro lado. Nas calçadas, hordas de mulheres se arrastam lentamente carregando sacolas, algumas zumbis, outras com o olhar tenso, a maioria falante e animada. Todas unidas numa irmandade acima do bem e do mal: as compras de Natal. A desculpa perfeita para gastar dinheiro. Aquela autorização Divina que afasta toda a culpa. Porque a cada dois presentes para alguém, a gente fica com um. Eu entro em casa e coloco metade das sacolas debaixo da árvore e a outra metade escondo debaixo da cama.Áí, meu Deus, acho que vou perder meu emprego aqui, na Elas&Lucros. Um ano inteiro de educação financeira destruído em 5 minutos de mau exemplo. E compramos tanta bobagem…

Ainda no final de semana fui visitar meus pais e encontrei pendurado na porta o Papi Noel gay que eu trouxe de Londres para o meu pai no ano passado. É lindíssimo, chiquérrimo, todo de paetês e purpurina, mexe os braços, as perninhas e o pescoço, claaaaaro, quando a gente toca nele.  Só me dei conta de que o requebrado e o figurino eram um pouquinho exagerados quando o rapaz que fazia o pacote começou um verdadeiro show de malabarismo, abrindo no ar folhas e folhas de papel de seda em tons de rosa, jogando purpurina com as pontas dos dedos como quem coloca pitadas de tempero na comida e fazendo laços de todos os tamanhos.  Exagerou  tanto na atuação que passei a olhar para os lados e percebi onde estava.  A loja era um verdadeiro altar ao mundo feminino.  Estavam lá as deusas do cinema e da música, Judy Garland, Cher e outras, em réplicas e porta-retratos e ícones femininos do universo infantil, as fadas todas, a Rainha Má, de Alice no país das Maravilhas, a Sininho do Peter Pan. Atenção: não havia princesas lindas, virgens e bem comportadas. Eram figuras  às vezes acima do peso como a Rainha ou minúsculas e mudas como a Sininho, com personalidades fortes, ciumentas, bravas, gente normal, afinal de contas. O fato é que nesse ambiente exótico comprei o Papai Noel gay que meu pai amou! E está lá na porta deles, rebolando cada vez que alguém entra ou sai da casa.

Publicado terça-feira, 7 de dezembro de 2010 às 14:33.
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A mentira, eu e minhas pernas curtas

Programa Elas & Lucros - 02/12/2010

Estou num apuro danado desde ontem quando meu marido me chamou para dizer que iria tranferir uma multa para o meu nome, já que eu era a “condutora do veículo no momento da infração”. Já estou acostumada a essa rigidez dele em relação às questões da lei e aceito os pontos que me cabem ( na carteira), portanto concordei imediatamente. A saia justa aconteceu quando ele me pediu uma cópia da carteira de motorista e eu percebi que ela estava vencida. O meu problema não é estar impossibilitada de dirigir. É enfrentar o marido. Estou disfarçando até agora, empurrando a hora da verdade para a frente. Ou tentando ganhar tempo para renovar o documento, o que deve levar uns 30 dias, pela minha conta. E ele anda atrás de mim, cobrando: “Deixa o documento, Marina”. E eu: “Calma, estou penteando o cabelo. Não me apresse”. Dali a pouco: “Marina, cadê a sua carta de motorista? ” Respondo com voz firme: “Nossa, que fixação! Esquece isso um pouquinho! ” Todo esse sofrimento porque eu não falei a verdade de cara. É assim o tempo todo. Raspei o carro? São três dias no Alemão, meu funileiro favorito, quase sócio. Os caras correndo com o serviço “engana marido” e eu de taxi para cima e para baixo inventando histórias sobre o destino do carro. Que deixei no escritório, que minha filha pegou emprestado. Não sei se é herança do relacionamento com meu pai ou se é uma modalidade nova de respeito, vamos chamar assim. Mas a mentirada não é privilégio para o meu marido.  Para me livrar da encrenca, ela vale para qualquer um. Quando ainda vivia em Nova York,  um amigo me pediu que trouxesse um tenis para ele quando viesse de férias para o Brasil. Eu esqueci, claro, e quando cheguei e ele me ligou perguntando pela encomenda respondi que estava comigo.  E tive que sair correndo para a Galeria Pagé ou coisa parecida atrás de um tenis que custou mais caro e com certeza era falsificado só para não contar a verdade. Dizem que a mentira tem pernas curtas. Sou eu, com as minhas perninhas, personificação da mentira! Não tenho esquemas elaborados, nem mentiras sofisticadas. É aquela qualidade mais barata de mentira, só para sair do aperto. Cadê tal coisa que você ficou de trazer? Humm…Tá no carro. Então vai pegar! Eu saio e volto três horas depois, suada, carregando o que deveria ter dito de cara que esqueci ou não quis trazer ou o que seja. Certa vez, cismei que era aniversário de uma amiga. Eu era ainda menina,  não dirigia e minha mãe me levou até a casa dela. À noite e num dia de semana. Quando paramos em frente ao portão, achei estranho aquela casa toda no escuro, nenhum carro, nenhum movimento. Ainda assim, me despedi da minha mãe e desci. Quando a mãe da menina veio abrir a porta desconfiei de que havia algo errado. Ela estava muito desarrumada para um dia de festa. Mas foi só já na sala da casa, onde o resto da família assistia televisão de pijama e moletom, que tive certeza do desastre: a festa definitivamente não era naquele dia. A sorte é que o presente era pequeno, enfiei entre as almofadas e lá deixei. Fiquei sentada, fazendo cara de naturalidade diante da situação mais esdrúxula do mundo.  Os minutos mais longos da minha vida. Depois, pedi para usar o telefone e falei baixinho para a minha mãe: “Vem me buscar rápido. E não dê os parabéns. Em casa eu te explico”. Ninguém nunca tocou no assunto comigo. Uma gente muito educada.

Publicado quinta-feira, 2 de dezembro de 2010 às 11:49.
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Pelo em ovo

Programa Elas & Lucros - 24/11/2010

Antes de embarcar para Buenos Aires no domingo, já no aeroporto, notei um fio de sobrancelha fora de lugar. Fiquei cismada e queria comprar uma pinça ali mesmo, mas achei que não me permitiriam carregar esse objeto perfurante na bagagem de mão e era só que eu tinha, uma maleta pequena que iria comigo dentro do avião. Não sou muito vaidosa, ao contrário, muitas vezes peco pelo descaso com minha aparência, mas tem umas coisas, e cada um tem “as suas coisas”, que a gente vê com lente de aumento. Mal pisei em terras portenhas e me pus a andar atrás de uma farmácia, sem saber como se diz pinça em espanhol ( acabou que nem é tão diferente,  pinza) para encerrar o assunto. Achei as pinzitas numa loja de souvenirs e vejam o que é uma boa idéia: estavam acondicionadas numa caixinha colorida e eram decoradas com o rosto da Frida Kahlo, a artista mexicana que tinha aquelas sobrancelhas lindas, mas quase coladas uma a outra, uma monocelha, como diria a minha filha. Aliás, essa minha filha se parece com a Frida Kahlo, mas detesta que digam isso porque a acha horrorosa. Eu não. É difícil dissociar a mulher , da artista e da personalidade que tanto dignificou a cultura mexicana.  Talvez por isso é que ela me pareça bonita, porque admiro muito a sua figura latina assumida. Além das sobrancelhas grossas, Frida tinha um senhor bigode, que ela mostrou várias vezes nos auto-retratos que fez. Como nenhuma biografia explica a sua relação com o bigode, ficamos sem saber se ela não conseguia se livrar dele por dificuldades técnicas da época ou se era uma proposta surrealista, como muitas de suas obras. Várias mulheres têm buço, que é aquela penugem fina acima dos lábios. É chato, mas esteticamente aceito. Bigode é outro departamento. Outro dia, num almoço familiar, minha mãe comentou que uma colega de trabalho dela tem bigode. Disse que a moça é jovem, bonitinha, professora universitária, com filhos pequenos e um marido bacaninha. Minha mãe contou que é perturbador conviver com a tal mulher de bigode porque não há como não notar, é escuro e grosso. E a moça assumiu de vez. Não deixou de clarear porque andou sem tempo, não esqueceu ou estava sem dinheiro para depilar. Foi uma decisão consciente. Eu tinha vontade de perguntar a razão. Será que acha bonito? Que é parte inseparável da sua persona? Que é ecologicamente correto? Eu também sempre achei que quanto mais natural a nossa aparência, melhor. E mantive um bigode clarinho por muito tempo. Mas mesmo a natureza tem seus caprichos e parece que o meu caso era de uma manifestação capilar quase selvagem. Numa certa altura, meu chefe, o Renato, tanto me atormentou que eu tirei o bigode. A laser. Ele fez um comentário: “Esse seu bigode está muito loiro”. Eu tinha clareado com Blondor, produto que toda mulher conhece, e disse: “Você preferiria que estivesse preto? “ e ele: “Não, preferiria que você não tivesse. “

Para arrancar o fio extraviado da sobrancelha, lá em Buenos Aires, usei aquele espelho que alguns hoteis têm, o que aumenta um milhão de vezes a nossa imagem refletida. Esse é um luxo matador. Acho que nem perua rica quer ter em casa. Ninguém, além da dermatologista, precisa ver os seus poros, marcas, manchas, rugas e pelos ampliados. Depois de alguns minutos de investigação, juro que cheguei a achar que crescia barba em mim.  Essa fixação deve ser hereditária. Minha avó, Marina Motta, dizia que queria levar as duas coisas que mais amava para o caixão: o piano e a pinça.

Publicado quarta-feira, 24 de novembro de 2010 às 15:37.
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Brincar de casinha

Programa Elas & Lucros - 19/11/2010

Desde criança me interesso pelas relações afetivas entre homens e mulheres. Ao longo do tempo, venho pesquisando e me tornando uma analista informal de dados e impressões colhidas sobre este assunto. Mais recentemente, para não fugir do inevitável, também passei a prestar atenção e tentar entender as relações homossexuais, mas até agora aquela lampadazinha de interesse genuíno, instintivo, não acendeu e entendi que isso talvez aconteça porque não sou homossexual e, portanto, não me identifico com as situações e sensações que permeiam esses casais. Mais do que isso, acho que a minha grande curiosidade está na maneira como homens e mulheres, criaturas tão diferentes, se acertam romanticamente, quer dizer, formam um par. Esse é o mistério da vida.

Obcecada pelo assunto e teimosa, que sou desde que me entendo por gente, eu só queria brincar de boneca e de casinha. A proposta podia variar, mas a  estrutura tinha que ser sempre a mesma: pai, mãe e filhinhos. Os meninos, vizinhos e primos, que participavam da brincadeira eram mantidos numa área externa da casa. Dirigiam o carro da família montados no botijão de gás; iam trabalhar carregando uma pasta velha num quartinho no fundo do quintal. Só apareciam quando eram chamados para comer as gororobas que fazíamos com folhas e flores espremidas na água e temperadas com açúcar ou sal. Nós queríamos, precisávamos dos meninos, mas não gostávamos que eles interferissem na rotina do lar, que invadissem a nossa privacidade. Dentro da casinha, só ficavam as meninas.  E para falar a verdade, eles não faziam muita questão de fazer comidinha, varrer o chão, trocar, ninar e alimentar as bonecas. Esse era o casamento como nós víamos, sem conflitos.

Namoro e casamento eram os assuntos mais importantes na minha vida e devo ter deixado isso muito claro porque nunca, desde o primeiro namoradinho, me relacionei com alguém  que não dissesse em algum momento que queria se casar comigo. Podia ser só uma estratégia para me conquistar, mas funcionava e quando a coisa terminava nós ficávamos viúvos de verdade. No auge da loucura, em relações curtíssimas tipo “one night stand”, voltando para casa de madrugada, salto  do sapato na mão, a maquiagem borrada, vinha aquela fala inevitável: “A gente deveria se casar”.  Cantada só para dormir em casa? Pode ser. O fato é que eu acreditei e fiz disso minha missão. Pensava: “É minha vocação. Fui escolhida por Deus para ser a representante dessa questão na Terra”.

Antes de namorados e maridos, eu gostava mesmo era do universo que cerca o casamento. Escolhia nome para os meus bebês, treinava a assinatura do meu nome acrescido do sobrenome da vítima do momento, fazia questão de uma aliançazinha nem que fosse de plástico. Acho que os meninos não davam muita importância, como aliás, reagem  normalmente os homens quando somos tão assustadoramente possuídas por tais idéias. Fazem de conta que estão de acordo para não ter que discutir a relação, topam até os pequenos rituais, mas apenas para garantir a manutenção da coisa.

Há algum tempo, encontrei meu primeiro namorado numa livraria. Estivemos juntos dos 13 aos 17 anos, com intervalos em que namorávamos outras pessoas para descansar um do outro. Quando aquele menino, agora um homem de terno e tudo, me viu caminhando com minhas três filhas, começou a rir. “O que foi? Está achando estranho? “, perguntei. E ele: “Nada. Estou rindo justamente porque sempre soube que seria assim”. E deve estar correndo até agora pensando no destino de que se livrou.

Ele era um garoto bonito, esportista, cheio de amigos, muito longe de ser um loser.  No entanto, me deixava ensaiar com ele o nosso casamento na Catedral de Guaxupé.

Eu entrava pelo corredor central de braço dado com um pai invisível (se o meu soubesse era capaz de me dar uma surra), num passo bem curtinho, daqueles de noiva mesmo, carregando um buquê com flores colhidas na praça em frente. E ele plantado no altar, esperando.  Então, nos ajoelhávamos e fingíamos que ouvíamos o padre nos casar. E aí, o ponto alto, o premio para tanto teatro: nos dávamos um beijinho na boca.Eu jurava que depois disso éramos casados. Minha existência estava justificada. Ele, por outro lado, saia dali e seguia direto para o clube jogar bola para só se lembrar de nós novamente no dia seguinte, na hora de passar lá em casa.

Eu cresci, estudei jornalismo, fui trabalhar, morei no exterior, fiz matérias sobre tudo o que se possa imaginar, de descoberta de medicação para o câncer em Nova York até desfile de Carnaval no Rio e a famosa cobertura do Oscar.  Já entrevistei personalidades reconhecidas em diversas áreas, na política, economia, artes. Mas a única pauta que ainda me interessa é o casamento. Ou como se queira chamar essa tentativa quase sempre frustrada de um encontro verdadeiro entre um homem e uma mulher.

Publicado sexta-feira, 19 de novembro de 2010 às 9:52.
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Casamento na eleição

Programa Elas & Lucros - 10/11/2010

Eu não votei no segundo turno. Nem as minhas filhas. Mas, como metade da família votaria num candidato e a outra metade no outro, a nossa ausência não alterou o resultado da eleição.
No feriado, fomos a um casamento em Salinas, no litoral do Pará, a uns 200 quilômetros de Belém, e esticamos mais alguns dias depois da festa desfrutando da hospitalidade dos nossos amigos, pais do noivo. Eu até poderia ter ficado aqui para votar como alguns conhecidos, também convidados para o casamento fizeram, mas eles certamente são mais fãs das relações políticas do que das relações pessoais. Estou longe de ser Olga Benário, Rosa de Luxemburgo, ou até mesmo Dilma Rousseff, essas mulheres que colocam a coisa coletiva, a causa à frente de suas questões particulares. Minha paixão mais solidária sempre começa e termina no um a um. Não consigo ver a massa disforme. Sempre que olho para a multidão, encontro um rosto em particular que me sensibiliza, uma voz com que tenho empatia, uma história que emociona. E só então posso estender esse sentimento para um grupo, uma comunidade, um povo.
O fato é que o filho daquele que tem sido meu amigo a vida inteira estava se casando e ele decidiu aproveitar a oportunidade para ter por perto os amigos que moram longe. E nos convidou também.
Para ir de Belém a Salinas, meu amigo tentou alugar uma van, mas, por causa das eleições, não havia mais carros disponíveis, e passamos cinco dias zanzando numa perua escolar. Era a turma mais heterogênea que se possa imaginar.
Havia um paraense, funcionário público em Brasília, que não estava preocupado com o resultado da votação, desde que não perdesse o emprego. Conhecia bem tudo quanto é funcionário dos Ministérios, Secretarias, autarquias e organizações. Gente de todos os partidos, seus hábitos, suas manias, seus relacionamentos. Estava tudo mapeado na cabeça dele depois de muitos anos no Planalto. Era um homem encantador, contava histórias divertidas com detalhes requintados e naquele sotaque gostoso do norte (que é diferente do nordeste). Topava qualquer parada, desde dançar o brega num bar de palafitas à beira do rio Guamá até dirigir quadriciclo nas dunas da praia e tomar tacacá (um caldo quente, feito com tucupi, jambu e camarão – servido numa cuia) num calor de 35 graus.
Havia também um casal de São Paulo. Ela era alegre, falante, animada. Ele, fazendo tipo de jornalista da velha-guarda, de esquerda, bolsa cruzada no peito, copo de cerveja na mão, mal-humorado, dono da verdade. Não conseguia pensar em outra coisa senão em política e, para cada fábula do boto cor-de-rosa que ouvíamos, ele tinha uma tese conspiratória provando as intenções manipuladoras do autor da fábula contra a comunidade nativa. O grande prazer desse cara era tentar adivinhar, entrevistando o de Brasília, qual seria o futuro ministério da Dilma, todos os prováveis 38. A gente ali, comendo caranguejo na praia, e ele: “Minas e Energia?” E levantava meia dúzia de nomes para analisar. A gente numa ilha, nadando entre as vitórias-régias do igarapé, e ele: “Desenvolvimento Agrário?” E seguia com a lista mental de possíveis candidatos. A gente debaixo do pé de açaí, esperando o caboclo descer daqueles mais de dez metros que tinha subido, feito malabarista de circo, para apanhar a fruta, e ele: “Saúde? Justiça?”

Foto, ele só fazia estilo denúncia. Na frente de uma sede de igreja evangélica, construída no meio da selva. Ao lado de um pescador indígena, com boné de deputado cassado. Nem uma foto abraçado à mulher, nem um registro das veredas tropicais, das falésias e dos buritis; nada.
Fazia parte da “turma da escolar” uma carioca bonita, supersensual, do tipo que qualquer gesto derruba a alça do vestido e que, de tão à vontade, deixa os homens todos sem atitude. Ela veio com os dois filhos adolescentes, daqueles com a franja cobrindo metade do rosto e olhos grudados nos celulares. Não posso falar muito. Minha filha mais nova também só se deu conta de onde estava porque queria ser fotografada o tempo todo e para isso precisava olhar o cenário em volta para se posicionar.

Meu amigo é casado em terceiras núpcias com uma moça tão jovem que a sogra é mais nova do que ele, e essa mulher elegante, alto-astral e energética sabia tudo sobre a cultura local e enriqueceu muito o conhecimento do grupo. Havia ainda um minigênio de nove anos, nosso mascote, um garoto que fazia comentários sobre geografia e nos causava arrepios. Sabia de cor, por exemplo, os nomes de todos os países asiáticos e suas capitais e ainda reclamou que no jogo “War” faltam alguns países da África. No bar, à noite, em meio àquela bebeção de Cerpa, a deliciosa cerveja paraense, o minigênio perguntava: “A bandeira do Reino Unido é a britânica?” E punha todo mundo a trabalhar na internet dos celulares até que vinha a resposta: “É ela, mas diferente porque ali estão representados também os outros países, Irlanda e Escócia.”

A família do meu amigo é um harém nortista. Nessa pequena cidade praiana, enquanto a caravana tomava sol, a mulher dele, mais as suas ex-mulheres corriam de um lado para o outro de bobes no cabelo, transportando gente, roupa, acessórios. Todas tiveram filhos com ele e outros filhos em seus casamentos posteriores. Convivem bem. Vão somando. É só inclusão. Ele insistiu que fôssemos visitar as casas de veraneio delas, onde estavam hospedados seus diversos ex-sogros. Ficamos constrangidos, mas fomos recebidos com tanto carinho que esquecemos a rigorosa cartilha sueste e nos sentimos parte da grande família. Ser homem nesses eventos é uma maravilha. Meu amigo, como já disse, pai do noivo, ficou na praia conosco até minutos antes do casamento, quando tomou um banho, colocou o terno e foi para igreja.

Quando voltamos para Belém, no dia seguinte, a van estava mais calada. Passamos pelo Ver-o-Peso, onde compramos litros daquelas garrafadas para dar sorte no amor, do tipo “Joga-te aos meus pés” e “Queira ou não queira, tem que me querer”, e viemos embora ainda sentindo na pele o perfume do banho de cheiro que tomamos à beira do rio Guamá e o gosto do sorvete de tapioca que nos viciou. A viagem de três horas e meia de avião para São Paulo é curta, não deu tempo de sairmos de lá de verdade. Precisaríamos de muito mais tempo, de dias, para deixarmos tudo isso para trás.

Publicado quarta-feira, 10 de novembro de 2010 às 16:11.
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