Fui convocada para organizar um evento para a agencia. E como sempre, entrei em pânico. A angústia das festas sempre me assombrou e ironicamente me tornei responsável, também por elas, profissionalmente. Tenho o pressentimento de que os convidados não vão aparecer, de que vai ser um fiasco. A minha euforia quando constato que tem gente suficiente, de que a festa efetivamente está rolando, é tão exagerada que ninguém entende. É uma alegria desmedida. Porque só eu seu sei do que escapamos.
A idéia de promover uma festa, na verdade, não foi do meu chefe. Foi de algum desavisado com poder no escritório. Porque meu chefe, graças a Deus, ainda que por razões diferentes, também é contra esses encontros sociais mandatórios. Toda vez que fui obrigada a sugerir uma coisa dessas ele deu o contra: “Marina, não inventa. Ninguém quer isso. As pessoas estão ocupadas, querem ir para casa descansar, o trânsito e’ um inferno… Você manda o convite e imediatamente cria um problema para o cara: ou ele se aborrece porque tem que vir ou porque terá que achar uma desculpa para não aparecer, fica aquela saia justa. Vamos passar.”
Meu problema não é desagradar as pessoas com o evento mas é conviver com um possível desastre.
Não é verdade que ” no fim dá tudo certo” . No fim é o fim, portanto, seu sofrimento não será eterno, mas`as vezes, as coisas dão sim, muito errado. Eu sempre tive trauma das festinhas das minhas filhas quando ainda eram pequenas, porque eu achava que não viria ninguém. E não sossegava enquanto não via a casa cheia. Por isso, todo lançamento de livro de amigo, sou a primeira a chegar que é para ele se distrair e achar que vai ter movimento. Tento fazer barulho, gesticular bastante, parecer que sou muitas. Fico nervosa e saio falando feito doida para preencher os espaços vazios. Meu terapeuta, já falecido, que Deus o tenha, me proibiu de manter esse cacoete de ansiedade. “Se der um branco na conversa, aquela situação idiota num jantar, por exemplo, o problema não é seu. Fique calada.” Só eu sei quantos desastres sociais já salvei ou pensei que salvei, mantendo esses diálogos sózinha. Eu mesma falo e respondo, sabe como e’? Você pergunta como quem está filosofando: “A vida anda muito difícil, não é?” Alguém concorda so´mexendo a cabeça e eu mesma respondo concluindo o raciocínio: ” Não se tem tempo para mais nada…” E às vezes, faço uma careta ou uma observação baixinho para esticar o lance.
Alguém já foi a uma festa surpresa em que, além do surpreendido e da mulher dele que organizou MAL a coisa, só apareceu você? Pois aconteceu comigo. E o pior é que o cara nem era muito amigo. Era amigo de um amigo e eu só fui porque iríamos sair depois. Cheguei cedo, claro, o apartamento estava todo decorado com balões e fitinhas coloridas, havia uma faixa de ” Feliz Aniversário” atravessando a sala e o casal conversando. Ficamos batendo papo um tempo e nada. A campainha não tocava. A mulher dele me olhava aflita e ele bebia, falava besteira, dava risada. Eu ali, só aumentando o constrangimento. À uma certa altura, ele desabafou: “Vamos falar a verdade, o que está acontecendo aqui? Esse merda de festa! Estou fazendo papel de idiota! ” E foi só palavrão. A culpada era ela, tadinha, que foi ofendida de todas as formas. O pior é que era mesmo. Para que inventar essas coisas?
Uma outra conhecida, no aniversário de 50 anos do marido, não só preparou uma festa surpresa como À FANTASIA! Diz ela que foi maravilhosa. Essa eu perdi porque, como ja’ disse, só vou a coisa que não dá certo. Contou com detalhes que mandou entregar uma fantasia para ele em casa quando, desavisado, assistia o Jornal Nacional de pijama. A caixa trazia instruções que ele seguiu rigorosamente. Vestiu-se de Elvis, seu personagem preferido, e seguiu para o salão onde cerca de 300 pessoas devidamente fantasiadas, ela de diaba vermelha super mal intencionada, esperavam por ele. Lá em casa isso virou piada e sempre que alguém quer fazer uma ameça, diz: ” Olha que eu faço para você uma festa surpresa e À FANTASIA, hein?”
Me lembro de uma vez, quando trabalhava na TV Cultura e recebemos uns convites para o show de um dos colegas ali da redação. Nas horas vagas ele era músico ou vice versa e iria se apresentar num teatro bem bacana. Combinamos que todos iríamos depois do trabalho. Fui para casa antes, tomar um banho e me arrumar. Estranhei não ver carro nenhum na porta, mas agourento que e’ agourento não desiste nunca. A porta do teatro enorme, de madeira pesada, estava fechada e tive trabalho para abrir. Fez um barulho: “E’e’e’e’e’e’e’e’” . Suficente para o meu amigo, que cantava de costas no palco para absolutamente ninguém, se virar e me ver. Ainda pensei em fugir mas já era tarde demais. De violão em punho, sorriu pra mim e continuou cantando. Me acomodei numa cadeira logo na frente e ainda fiquei dançarolando, acompanhando o ritmo da música com a cabeça só para disfarçar. No final do que me pareceram dez horas de show, bati palmas, mandei beijos e fui embora. No dia seguinte, eu não mexia o pescoço de tanta dor por causa da tensão durante aquele tempo todo. E ele, o artista, eternamente grato, nunca mais olhou para mim do mesmo jeito.
Bem, eu estou só desabafando, buscando solidariedade. Vou organizar a tal festa e deixar uma kombi cheia de figurantes na rua de trás para o caso de faltar gente.