Valores Femininos

por Marina Moraes

Elvis está vivo!

Meu irmão trabalha num banco no interior de São Paulo. Contou que uma senhora, viúva de homem rico, é conhecida na cidade e por tabela no banco, pela fixação que tem por Elvis Presley. Possui camisetas, buttons, bolsa, agenda, quadro, toda a sorte de memorabília e, é claro, todos os discos do astro do rock. Sabendo disso, um espertalhão que andava flertando com ela, ou com o diheiro dela, tomou as providencias necessárias para impressioná-la. Numa segunda -feira, essa senhora entra no banco aos gritos. Já na porta, agarrou o segurança pelo braço e anunciou emocionada: “Elvis está vivo! Vou me encontrar com ele em Paris!” Sacudindo no ar um DVD, chamou os rapazes e moças do caixa, o gerente e até alguns clientes que estavam ali no momento para assistir a prova da imortalidade de seu ídolo. Eram imagens de um Elvis tosco com a Torre Eiffel ao fundo, que dançava e dublado, sem o menor cuidado com a sincronicidade ou o sotaque, avisava que estava em Paris esperando por ela e o tal namorado malandro. Ela queria tirar o dinheiro do banco a qualquer custo para a viagem. Foi difícil convencê-la de que se tratava de um golpe. Ela chorou muito. Menos pelo namorado do que por Elvis.

Publicado terça-feira, 26 de abril de 2011 às 14:23.
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Uma vida é muito pouco

A boa notícia é que minha mãe perdeu o ônibus. Foi assim: ela iria pegar o ônibus das sete para Guaxupé, como faz toda semana. Então teria que acordar às cinco e meia, mas parece que o despertador não tocou ou ela não ouviu. Quando acordou, já eram oito e tanto. Pode acontecer com qualquer um. Não com a minha mãe. Tensa, agitada, multi-tarefada, cumpridora implacável, control freak, nunca se atrasa nem perde um compromisso. Mais do que isso, fica de olho nas nossas agendas para que ninguém deixe de cumprir o que estiver combinado. O nosso problema nunca foi perder o evento, mas encarar minha mãe. E ontem, quando ela já deveria estar chegando em Guaxupé, me liga aos gritos, porque ela não sabe falar no celular, e eu pensei que estava sendo assaltada ou qualquer coisa assim. Disse: “Estou na rodoviária. Perdi o ônibus das sete, só vou no das onze”. Estranhei demais: “Como assim, perdeu o ônibus?” Ela respondeu: “Perdi a hora, minha filha! Não é demais?” Fiquei encantada: “Nossa! Que maravilha!” E ela acrescentou, já percebendo que estava agradando: “Também estou achando bom. Acordei, vi que tinha perdido a hora e pensei: bem, já era. E voltei a dormir”. “Mãe”, eu disse, “você tem que contar isso para a sua mestra de meditação, para as professoras de ioga”, que ela tem uma em SP e outra em Guaxupé, “para a terapeuta! A rede anti-estressante está finalmente funcionando!” E depois tive uma dúvida: “Péra aí. Você não dobrou o medicamento, dobrou?” Ela exultante: “Nãããão. Foi natural mesmo”. Desligou o telefone e ligou para as minhas irmãs para contar. E todo mundo teve a mesma reação. Foi uma alegria só. Por ela em primeiro lugar. E por nós que seremos, por tabela, alforriadas. Não vai ser fácil, porque essas coisas são introjetadas cedo e para a gente se livrar é preciso muita análise, punição com abdominais e exorcismo. Mesmo que minha mãe nunca mais diga nada, toda vez que a gente se atrasar ou faltar vai ouvir aquela voz nos condenando, aquela expressão de desaprovação. Não faz mal. Uma vida é mesmo pouco para tanto aprendizado. O ideal seria termos direito a uma volta para aplicar o que aprendemos. Mas aí a gente começaria a errar noutras coisas…

Publicado sexta-feira, 8 de abril de 2011 às 16:29.
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Calou a Minha Boca

 

Eu queria criar aqui uma seção com histórias em que fomos desmentidos pelos fatos, em que tivemos que engulir o discurso antecipado, em que erramos feio na avaliação. Seria o espaço Calou a Minha Boca. Como recentemente em Salvador, onde passei o Carnaval acompanhando meu marido que estava lá a trabalho. Ele me levou com a condição de que eu me comportaria, ficaria quietinha na piscina do hotel, lendo, protegida da insanidade coletiva das ruas. Só quem foi recentemente a Salvador no Carnaval sabe do que estou falando. A minha fantasia era outra, claro, me acabar no meio daquele povo todo dançando o hit do ano, o melô do Superman. Nem o famoso cheiro de xixi me impedindo, nem os pisões, nem a mão boba. Me misturar na massa humana , levitando no ritmo da música: “Se sair do chão, não volta mais”, advertem os mais experientes . E para isso tudo nem é preciso estar previamente num estado alterado, você entra em transe durante o ritual.  O fato é que nos instalamos naquele hotel que era um quartel general guardado 24 horas por dia por homens negros, fortes e bonitíssimos de terno e revólver no peito.  A percursão batia lá fora, meu coração respondia dentro do quarto. Ao abrir a mala, percebi que tinha deixado o filtro solar em casa e desci até a lojinha, no lobby do hotel, para comprar. A vendedora linda, com cabelo trançado e roupas estilo afro-brasileiro, ou seja, tecidos estampados enrolados no corpo, mas reduzidos a um terço da metragem original da tribo onde nasceu a moda, veio me atender. Me tratou como a uma turista ingênua ensinando a importancia do uso do filtro solar marca X e da loção pós sol marca Y e outros produtos caríssimos para hidratar a pele exposta ao sol. Fiquei muito brava e saí de lá atrás de uma farmácia na rua, resmungando contra a mulher, amaldiçoando “esse povo que trata a gente feito idiota e quer nos empurrar as coisas, tomar o nosso suado dinheirinho”.  Caminhei alguns metros por uma verdadeira zona de guerra, ou pós-gerra, entre corpos jogados em toda parte, gente desacordada ainda sob efeito da noite anterior. Havia esculturas gigantes feitas com latas de cerveja à venda, gente negociando toda sorte de coisas, de pf a lugar na sombra, passando por mercadorias que não consegui identificar. Só quem foi recentemente a Salvador no Carnaval sabe do que eu estou falando. Saí da farmácia com mantimento e munição para um mês. Mais tarde, me dei conta de que havia esquecido outra coisa importante para a estadia, o livro. Meu marido perguntou: “Mas afinal, o que você trouxe nessa mala?”. Eu respondi: “Abadás!” Ele não achou graça nenhuma. A perspectiva de não ter o que ler naquela prisão de luxo me aterrorizou: “Se o mundo acabar aqui e agora como as pessoas de bom senso prevêem, preciso de um livro para me meter dentro”. E voltei à lojinha do hotel, único posto de comercialização acessível  àquela altura, com os bloco já desfilando lá fora. Repito, só quem foi recentemente  à Salvador no Carnaval sabe do que estou falando. Entrei na loja de mau humor e nem olhei para a cara da vendedora. Fui direto para a prateleira onde estavam as revistas semanais, a Caras, o jornal local, apropriadamente chamado de A Tarde, afinal estamos na Bahia, mas nada de livros. A moça se aproximou e quando me queixei de que não tinha nada para ler, ela respondeu gentil: “Eu tenho um livro, posso te emprestar”. “Como assim?”, perguntei.” “Bem”, disse ela, “uma amiga  me deu, já li, pode levar”. “Mas não vai dar tempo de acabar de ler e te devolver”. “Não faz mal. Se não der, você leva para casa e quando terminar, dá para alguém. Livro foi feito para ser compartilhado”. E me estendeu um exemplar de Onze Minutos, do Paulo Coelho, com dedicatória ( da amiga para ela) e tudo. Eu, que nunca havia lido Paulo Coelho, cumpri a minha obrigação, fui o ela da corrente, li com carinho e já passei para a frente. Ela calou a minha boca.

Publicado quinta-feira, 7 de abril de 2011 às 19:28.
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“Assim é se lhe parece”, Pirandello

Programa Elas & Lucros - 01/03/2011

Dei de presente para o meu pai a biografia do pintor Chagall ( Marc) cuja história, sem trocadilhos, tem tons fortes. Judeu russo, atravessou as duas Grandes Guerras e sofreu com o nazismo na Europa. Ainda assim, em seus quadros, as  imagens que mostram as atrocidades da guerra foram equilibradas por símbolos de esperança. Meu pai devolveu o livro alguns dias depois dizendo que não o leria porque não gostava do trabalho de Chagall: “Ele rouba no jogo. Se faz de ingênuo, de inocente.” Só entendi porque conheço meu pai. Adoro os quadros de Chagall e mesmo que não gostasse, leria a sua biografia. Paciência.

Meu pai é uma criança manhosa. Sempre foi assim. Na Páscoa, se os nossos ovos fossem maiores que o dele, emburrava. Minha mãe tinha que comprar tudo igual. E ainda no ano passado, na noite de Natal, peguei um rabo de conversa em que ele reclamava que os adultos não tinham nada para brincar no dia seguinte do Natal. O que, no caso dele, é uma mentira e uma ingratidão muito grande. Sabendo como é a criatura, temos o cuidado de procurar um presente com que ele possa se divertir e não simplesmente uma camisa ou uma calça que está precisando e que minha mãe insiste em nos recomendar já com a numeração, as medidas e tudo. Ele ganha uma almofada em formato de elefante que vem com porta-controles de tv na tromba. Ganha abajur com corpo de vaca que acende quando se balança o rabo. Ganha tinta, pincéis, material de marcenaria. Eu mesma dei para ele um carneiro lindíssimo de pernas longas, tamanho natural, e está lá na sala, tomando conta dos porta-retratos, o que deixa minha mãe de mau humor.  Não basta para o menino. Ele chega na mesa e diz: “Marina, sua mãe não quer me deixar pendurar aquela cabeça de ornitorrinco ( ou qualquer outra coisa) que você me deu. Diz que é para  levar para o quarto”. Eu: “Ái, mãe, a cabeça fica bonita na copa, ao lado do filtro, como ele quer. Deixa…”

Meu pai sempre gostou muito de animais. Tivemos muitos cahorros. Não um de cada vez, muitos ao mesmo tempo. Aos sábados, meu pai entrava no chuveiro com a cachorrada e depois ia liberando um por um. Eles chegavam na cozinha, na frente da minha mãe e se sacodiam para se secar. Por ultimo vinha meu pai, bem cheiroso. Aí ela perdoava. Tivemos, macacos, gatos, hamsters, aquários enormes, papagaios e até um jacaré que a empregada matou a vassouradas. Mas ele sempre gostou mesmo de aves. Fazia experiências genéticas na fazenda. Misturava pato com ganso, galinha com pavão. Vendia, trocava. Ainda o faz, agora mais sofisticadamente pela internet. Compra e vende

animais, troca informações, aprendeu uma receita de biscoito pros cachorros e faz fornadas e fornadas para eles.

As crianças dizem que ele é invejoso. Toda vez que um neto ganha um bicho, ele fica louco e arruma um igual. Agora mesmo, lembram-se do gatinho da minha filha, o Meio-Quilo? Primeiro ele disse que o gatinho era magro, horroroso, depois ficou desesperado quando a viu se divertindo e conseguiu um igualzinho para ele. Chama-se Meu Guri.

Meu pai sempre ficou à vontade nesse universo animal. Em toda foto dele há um bicho. Tem uma nojenta, que as crianças amam, em que ele está beijando a mula da fazenda na boca. Não respeita nada. Pintou sobrancelhas nos cachorros galgos, que dizia se parecerem com figuras de Midigliani, só faltando as sobrancelhas finas. E sempre que é cobrado por alguma incoerência ou heresia, defende-se com o argumento de que “ Isso é subjetivo” ou “ Tudo é questão de ponto de vista”.

Só meu pai, católico de vela acesa no quarto, enriqueceria o presépio da família colocando entre os reis magos, bonequinhos como o Snoopy, a Hello Kitty ou o Shrek, que ele roubou dos netos. Só ele para pendurar o Papai Noel gay cheio de purpurina que eu trouxe de Londres e que rebola quando se abre a porta.

Porque será que tendo um pai livre como esse, que se permite tanta coisa, eu nunca acreditei que era possível ser diferente e dar certo? Passei a vida toda tentando ser certinha e por isso, inatacável.  Só muito recentemente baixei a guarda. A melhor coisa do mundo é a gente se aceitar como é, acreditar, apostar no que somos e ainda, se possível, ganhar dinheiro com isso.

Publicado terça-feira, 1 de março de 2011 às 16:30.
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Nem morta!

Programa Elas & Lucros - 16/02/2011

Já não agüento mais esse clima maluco. Ontem mesmo foi um daqueles dias que os americanos, que têm mania de classificar tudo, chamam de “ bad hair day”. Em português, “um dia para não se marcar um encontro com quem você precisa impressionar”.  Mas eu tinha um compromisso, precisava dar um jeito no cabelo e fui ao salãozinho bem em frente ao escritório. A mulher/ homem que me atendeu, me lembrou aquele índio do filme “Um Estranho no Ninho”, com o Jack Nicholson, o gigante mudo, colega do Nicholson no hospício.  O do salão também era um tipo enorme, de cabelo alisado e corte estilo Chanel, num uniforme branco, calça e jaleco. Mudo, como o do filme. Com um gesto me apontou a pia. Enquanto esfregava a minha cabeça, tentei adivinhar pelo toque se era homem ou mulher mas não consegui. Estava delicioso demais e eu me desconcentrei da minha investigação. Na hora de secar, comecei a explicação de sempre: “Querido/da, eu queria uma coisa mais natural. Nada de escova muito lisa, mas também não cheio de cachinhos. Gostaria das pontas viradas para fora atrás e para dentro na frente…” e ele/ela me interrompeu , entregou o secador e com poucas palavras pediu que eu mesma terminasse.  Saí de lá arrumadinha para o dia quando a chuva caiu. Corri para atravessar a rua, mas não o suficiente para escapar da água e voltei para o escritório, talvez por castigo divino, com a cara do índio gigante do salão, numa versão encolhida, claro.

Mas isso não é nada perto das coisas horríveis que podem nos acontecer nesse departamento. O Paulo Francis mesmo, às vezes aparecia com o cabelo verde para gravar na Globo, em Nova York. Tinha errado na tintura. Não era exatamente tintura, mas aquele produto que se passa para o cabelo branco ficar mais bonito. Nesses dias ele dizia que estava “cansado de se parecer com os terráqueos…”

Eu já entrei no ar, ao vivo, na TV Cultura, com um clips gigante segurando a franja. O pessoal do estúdio fazia gestos que eu não entendia. Suspeitava que havia algo errado com o guarda rodoviário que estava entrevistando e fazia caretas que certamente pioraram a cena. O policial não achou nada demais, deve ter visto coisa muito pior nas estradas.  O que me consola é que sou da geração pré Youtube.  Não caí nas redes. Nem com o clips no cabelo, nem no dia em que apresentando o Jornal da Cultura, me confundi e anunciei que Mikhail Gorbachov dançaria em homenagem à estatua da liberdade quando deveria dizer Mikhail Baryshnikov, claro.

Mas voltando às questões capilares, outro dia, a discussão entre nós, a turma de sempre, era se deveríamos parar de tingir os cabelos brancos ou não. Uma amiga disse que estava cansada dessa função de a cada 15 dias ter que gastar um dinheirão e ficar duas horas no salão para sair com a mesma cara que entrou, menos um dedo de raiz branca. Que achava digno,bacana, a atitude dessas mulheres que estão assumindo o grisalho. Que achava moderno. Fiquei histérica. Porque não sou exageradamente vaidosa, mas cabelo branco é o meu limite. Tenho até um trato com minhas irmãs : se eu entrar em coma ou coisa parecida e ficar padecendo no hospital, uma delas tem que entrar com a tinta e o pincel e fazer o serviço. Se eu acordar cinco anos depois com a cabeça branca, não vou perdoá-las. Se morrer assim então, elas vão arder no fogo do inferno. Propus imediatamente um pacto para momentos de fraqueza como esse que minha amiga estava enfrentando. Que nós, amigas de longa data, deveríamos ter liberdade para fazer uma intervenção daquelas que se faz com drogados, juntar todo mundo, pegar de surpresa a pessoa que se recusa a pintar o cabelo e convencê-la de isso está inclusive queimando o nosso filme, prejudicando mulheres da mesma faixa etária que não querem ser identificadas com essas coroas. Uma outra reforçou: “Imagine, eu pinto cabelo, sobrancelha e todos os pêlos do meu corpo que teimarem em ficar brancos”.

Esse é um assunto para ser discutido apenas neste fórum de cumplicidade. Meu marido já foi instruído e não erra mais. Quando digo que vou tingir o cabelo, ele não faz nenhum comentário, nenhuma observação, nem um olhar diferente. Porque  se responder: “Já vai tingir de novo? Não está precisando ainda”, é um homem morto.  Ou não prestou atenção direito ou é relaxado comigo e não faz questão de que eu pareça perfeita como, de fato, sou. Se disser: “Vai sim, meu amor”, estará atestando que  viu meus cabelos brancos e concorda que estou horrorosa. Está morto novamente.

Certo está o povo em Guaxupé que tem outras prioridades. Veja o caso da minha mãe que foi ao salão instalado no quintal da Maria para tingir o cabelo. Quando a cabelereira terminava de aplicar a tinta, a campainha tocou e uma voz surgiu lá do portão:  “Maria, vamos na Santo Antonio?” E a Maria avisou minha mãe: “ Eu vou até a igreja fazer a novena com o pessoal. Você fica aí à vontade que em 40 minutos eu volto para lavar a sua cabeça.” E foi.

Publicado quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 às 17:01.
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Às vezes, no fim da´tudo errado

Programa Elas & Lucros - 11/02/2011

Fui convocada para organizar um evento para a agencia. E como sempre, entrei em pânico. A angústia das festas sempre me assombrou e ironicamente me tornei responsável, também por elas, profissionalmente. Tenho o pressentimento de que os convidados não vão aparecer, de que vai ser um fiasco. A minha euforia quando constato que tem gente suficiente, de que a festa efetivamente está rolando, é tão exagerada que ninguém entende. É uma alegria desmedida. Porque só eu seu sei do que escapamos.

A idéia de promover uma festa, na verdade, não foi do meu chefe. Foi de algum desavisado com poder no escritório. Porque meu chefe, graças a Deus, ainda que por razões diferentes, também é contra esses encontros sociais mandatórios. Toda vez que fui obrigada a sugerir uma coisa dessas ele deu o contra: “Marina, não inventa. Ninguém quer isso. As pessoas estão ocupadas, querem ir para casa descansar, o trânsito e’ um inferno… Você manda o convite e imediatamente cria um problema para o cara: ou ele se aborrece porque tem que vir ou porque terá que achar uma desculpa para não aparecer, fica aquela saia justa. Vamos passar.”

Meu problema não é desagradar as pessoas com o evento mas é conviver com um possível desastre.

Não é verdade que ” no fim dá tudo certo” . No fim é o fim, portanto, seu sofrimento não será eterno, mas`as vezes, as coisas dão sim, muito errado. Eu sempre tive trauma das festinhas das minhas filhas quando ainda eram pequenas, porque eu achava que não viria ninguém. E não sossegava enquanto não via a casa cheia. Por isso, todo lançamento de livro de amigo, sou a primeira a chegar que é para ele se distrair e achar que vai ter movimento. Tento fazer barulho, gesticular bastante, parecer que sou muitas. Fico nervosa e saio falando feito doida para preencher os espaços vazios. Meu terapeuta, já falecido, que Deus o tenha, me proibiu de manter esse cacoete de ansiedade. “Se der um branco na conversa, aquela situação idiota num jantar, por exemplo, o problema não é seu. Fique calada.” Só eu sei quantos desastres sociais já salvei ou pensei que salvei, mantendo esses diálogos sózinha. Eu mesma falo e respondo, sabe como e’? Você pergunta como quem está filosofando: “A vida anda muito difícil, não é?” Alguém concorda so´mexendo a cabeça e eu mesma respondo concluindo o raciocínio: ” Não se tem tempo para mais nada…” E às vezes, faço uma careta ou uma observação baixinho para esticar o lance.

 Alguém já foi a uma festa surpresa em que, além do surpreendido e da mulher dele que organizou MAL a coisa, só apareceu você? Pois aconteceu comigo. E o pior é que o cara nem era muito amigo. Era amigo de um amigo e eu só fui porque iríamos sair depois. Cheguei cedo, claro, o apartamento estava todo decorado com balões e fitinhas coloridas, havia uma faixa de ” Feliz Aniversário” atravessando a sala e o casal conversando. Ficamos batendo papo um tempo e nada. A campainha não tocava. A mulher dele me olhava aflita e ele bebia, falava besteira, dava risada. Eu ali, só aumentando o constrangimento. À uma certa altura, ele desabafou: “Vamos falar a verdade, o que está acontecendo aqui? Esse merda de festa! Estou fazendo papel de idiota! ” E foi só palavrão. A culpada era ela, tadinha, que foi ofendida de todas as formas. O pior é que era mesmo. Para que inventar essas coisas?

Uma outra conhecida, no aniversário de 50 anos do marido, não só preparou uma festa surpresa como À FANTASIA! Diz ela que foi maravilhosa. Essa eu perdi porque, como ja’ disse, só vou a coisa que não dá certo. Contou com detalhes que mandou entregar uma fantasia para ele em casa quando, desavisado, assistia o Jornal Nacional de pijama. A caixa trazia instruções que ele seguiu rigorosamente. Vestiu-se de Elvis, seu personagem preferido, e seguiu para o salão onde cerca de 300 pessoas devidamente fantasiadas, ela de diaba vermelha super mal intencionada, esperavam por ele. Lá em casa isso virou piada e sempre que alguém quer fazer uma ameça, diz: ” Olha que eu faço para você uma festa surpresa e À FANTASIA, hein?”

Me lembro de uma vez, quando trabalhava na TV Cultura e recebemos uns convites para o show de um dos colegas ali da redação. Nas horas vagas ele era músico ou vice versa e iria se apresentar num teatro bem bacana. Combinamos que todos iríamos depois do trabalho. Fui para casa antes, tomar um banho e me arrumar. Estranhei não ver carro nenhum na porta, mas agourento que e’ agourento não desiste nunca. A porta do teatro enorme, de madeira pesada, estava fechada e tive trabalho para abrir. Fez um barulho: “E’e’e’e’e’e’e’e’” . Suficente para o meu amigo, que cantava de costas no palco para absolutamente ninguém, se virar e me ver. Ainda pensei em fugir mas já era tarde demais. De violão  em punho, sorriu pra mim e continuou cantando. Me acomodei numa cadeira logo na frente e ainda fiquei dançarolando, acompanhando o ritmo da música com a cabeça só para disfarçar. No final do que me pareceram dez horas de show, bati palmas, mandei beijos e fui embora. No dia seguinte, eu não mexia o pescoço de tanta dor por causa da tensão durante aquele tempo todo. E ele, o artista, eternamente grato, nunca mais olhou para mim do mesmo jeito.

Bem, eu estou só desabafando, buscando solidariedade. Vou organizar a tal festa e deixar uma kombi cheia de figurantes na rua de trás para o caso de faltar gente.

Publicado sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 às 7:51.
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Meio Quilo

Programa Elas & Lucros - 01/02/2011



Vou dar uma dica de férias para quem e’ mãe, uma pena que so’ descobri agora no finalzinho. Fomos a Guaxupe’ e como acontece a vida inteira, as crianças se encantam com um bicho qualquer na fazenda, um pato, um marreco, um cachorro e querem trazer para São Paulo. Você explica que o animal vai sofrer, que vai se suicidar no apartamento, não sensibiliza ninguém. Depois abre o jogo e diz que voce e’ que vai morrer, que vai se suicidar se o bicho ficar em casa, mas também não convence os monstrinhos  que juram pela” minha” vida que vão cuidar, limpar, etc, quando todos sabemos que isso jamais vai acontecer. E a viagem de volta e’ invariavelmente péssima, todo mundo emburrado como se isso invalidasse tudo o que de legal aconteceu ate’ agora. Porque criança e’ assim, você vai para a Disney, fica no melhor hotel, enfrenta fila, sol, calor, chuva, anda em todos os brinquedos. Na hora de ir embora, já no aeroporto, você se recusa a comprar um chicletes e tem que ouvir a malcriação de que e’ um monstro egoista.

Desta vez, não sei se foi o calor que amoleceu meu coração, se foi culpa porque eu andava felizinha e a religião mineira nos proibe de sermos felizes. Num momento de fraqueza, autorizei a vinda de um gatinho horroroso que minha filha mais nova achou no quintal da caseira na fazenda que, por sua vez, o havia encontrado, abandonado na beira da estrada com apenas alguns dias de vida. O gatinho era magro que so’ ele, parecia feito de arame com aquele rabo fino todo torto e tinha orelhas enormes, como um morcego ou um Inca Venuziano, ser extraterrestre do Nacional Kid, lembra? O pêlo era cinza e por isso parecia ralo, achamos que tinha uma doença de pele/pêlo qualquer.  E minha filha veio com aquele bicho horrivel que batizou de Pretinho e nós chamamos de Meio Quilo porque era o que ele pesava, 500 gramas. Enquanto ela carregava compenetrada a caixinha no colo no banco de trás do carro, eu seguia pela Anhanguera pensando: ” Não vai durar nada, vou me livrar desse Filho de Francisco muito rápido.”  Ainda que feio, pobre, orfão, caipira, sujo, achei que merecia uma consulta no veterinário, afinal, tenho religião. Fiquei constrangida na ante-sala com aquele arremedo de gato no colo como se fosse a mãe de um bebê feio. Paguei jurando que o diagnóstico seria terrivel, mas devia ter combinado o jogo com o veterinário que, para fazer charme para minha filha e arrancar meu dinheiro, elogiou a saúde do bichano, garantiu que não tinha pulgas nem vermes ( mesmo assim nos vendeu medicamentos para os dois eventuais invasores) e  o devolveu avaliando que pelo seu desenvolvimento, tinha pouco mais do que 30 dias.

Agora, ele ja’ vale mais ou menos uns 300 reais se somarmos a comida, caixinha de areia, areia perfumada, vasilha para comida, para água, bolsa para transportá-lo ( e isso nós compramos ali mesmo na pet shop convenientemente instalada ao lado da clinica veterinária, porque o gatinho, assustado com o passeio, se agarrou no pescoço da minha filha como uma ventosa e quase lhe rasgou a jugular). Fora a consulta, vitaminas, remédios e tudo mais.

Mas  Meio Quilo foi ficando, aquela coisinha humilde,  fazendo farra com qualquer pedacinho de papel, satisfeito com um punhadinho de comida, duas lambidas na água, fazendo xixi e cocô na caixinha de areia desde que chegou. E de tão pequeno, ainda não mia, o que e’ a sua maior qualidade. Temos que ficar muito espertos para ele não se enfiar nalgum lugar e ficar preso porque  sem o miado, não da’ para localizá-lo.  E há o agravante de termos outras duas gatas mais velhas, duas tias solteironas, castradas, que não suportariam a alegria, o bom humor desse jovem desastrado que vive de coração aberto achando que ganhou na loteria porque foi recolhido na estrada de terra em Guaxupé e vai se educar em São Paulo. Decidimos, então, que ele deve ficar preso no quarto da minha filha ate’ crescer um pouco mais. E ja’ são 15 dias de absoluta paz em casa. Sozinha ou acompanhada das amigas, minha filha passa o dia inteiro trancada la’ dentro com o  gato de onde so’ sai, suada e arranhada da cabeça aos pés, para comer. Faz fotos dele o tempo todo, manda para os amigos, morre de rir das suas trapalhadas, esta’ no céu. Paguei a minha lingua, por esse meio quilo de sossego eu não esperava.

Publicado terça-feira, 1 de fevereiro de 2011 às 8:05.
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Os des(encontros) da vida

Programa Elas & Lucros - 19/01/2011

Vinicius de Moraes dizia : “A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros nessa vida.”  E devia acreditar mesmo, sabemos de pelo menos oito encontros oficiais e os consequentes sete desencontros… Pensei nisso outro dia quando uma amiga desabafou sobre a sua desesperança de voltar a ter uma vida amorosa. Resumiu sua história afetiva recente numa serie de ” desencontros e frustrações” . Ela me perguntou se deveria desistir e antes que eu dissesse qualquer coisa, respondeu : “Não! Seria triste demais chegar a esta conclusão”. Esta minha amiga já foi abandonada de quase todas as formas possíveis, em todas as situações, com direito a desculpa esfarrapada ou silencio absoluto. Pior é que a gente dá muita risada, acho que de nervoso, como em velório.  Da última vez foi assim: “Sabe o fulano de tal, diretor de tal empresa, divorciado, etc?” ” Sei”. “Tá arrastando a maior asa prá mim”. “Puxa, é mesmo?”  “E’. Marcamos um encontro hoje naquele hotel chiquérrimo aqui em São Paulo. Ele mora em Curitiba, lembra?”

Fiz que sim. Mais tarde, ela ligou novamente. “Estou aqui  na banheira, montei um clima super romântico, velas, flores, estou tomando um vinho branco e esperando por ele.”  ”Ai, que legal!  Bom, me conta amanhã como foi. Boa sorte”. Uma hora depois, ela de novo no telefone: “Ele esta’atrasado, ligou do aeroporto”. “ Ok, mas vem vindo, não é?” “ Claro! Abri a segunda garrafa de vinho e talvez eu saia um pouco da água porque já estou toda enrugada.” “Faça isso, querida. Se embrulha num roupão, também fica sensual. Falamos amanhã. Aproveite. ” Duas horas depois,  já em casa e pronta para dormir, toca o telefone, é ela. E aí vem o nosso ataque de riso: “Marina”, diz com a voz já meio pastosa,  “ele não apareceu nem atende o celular. Eu tinha esperança de que o avião tivesse caído, mas nada. Está vivo e forte em algum outro lugar. Vou ter que pagar a conta e sair amanhã cedo.  Mais uma vez. ” A gente ri para não chorar.

Eu também já tomei uns foras, que poderiam ser chamados de desencontros, se a gente quisesse fazer poesia disso.  Teve uma vez que um rapaz bem bonitinho, objeto de desejo da redação inteira, me convidou para sair. Já havia um clima entre nós e quando contei para a mulherada do jornal, foi aquela gritaria: ”É hoje!!!” Ele era um príncipe: educado, gentil,  tinha até uma fofoca de que quando ela viajava para fazer matéria, levava um pijaminha na mala. Me convidou para irmos ver um show de musica brasileira na boate de um hotel bacana. Jantamos, vimos o show, dançamos de rostinho colado, trocamos uns beijos, a coisa foi esquentando e ele sugeriu: “Vamos subir e ver se tem quarto para a gente ficar aqui?” Eu não estava preparada, um homem que dorme de pijama deve querer uma mulher que dorme maquiada, sei lá. Fiquei nervosa, mas não era uma oportunidade para se perder. Topei.  Morrendo de vergonha, atravessei o saguão de mãos dadas com ele, tentando me esconder dos caras da recepção. Ele pergunta para um deles: “Vocês tem um quarto para hoje?” “Temos sim”. “E quanto é?” Quando o rapaz do hotel falou o valor, ele levantou a voz exaltado: “Quanto? Você tá brincando! Ah,  não vai dar. Vamos embora.” E saiu bravo, reclamando do abuso do preço. Eu muda atrás, só pensando: burra! Bem feito!Quem mandou fazer o que não deve!

Ele ainda queria parar para tomar um café, mas fiz questão de ir embora para não chorar ali. No dia seguinte, lá estavam elas, as colegas,  na maior expectativa: “E aí? Como foi?Conta tudo!” Tive que desapontar a torcida descrevendo o sapo em que o nosso príncipe tinha se transformado.

Fico impressionada com as adolescentes de hoje, que vivem suas emoções coletivamente na internet sem nenhuma distinção do público e do privado. A minha filha de 12 anos, arruma namorado, dá e leva fora, tudo em grupo. Todo mundo participando, dando palpite, aquela falta total de privacidade. Outro dia, ela estava eufórica porque ficou sabendo pelo MSN que a amiguinha tinha “ficado” com um menino numa baladinha e  que estavam namorando.  Trocaram centenas de posts, mensagens , recados, fotos, tudo o que eles tinham direito para divulgar a notícia.  Foram menos de 12 horas de alegria. No dia seguinte, a amiga contou, no MSN, que levou o fora quando eles se encontraram no clube pela manhã. À noite ele gostou dela, mas à luz do dia, descobriu que havia se enganado . E isso é dito sem  constrangimento, com a maior naturalidade. Num outro momento, minha sobrinha de 11 anos, perguntou para um menino, também via internet à vista de centenas de testemunhas, se ele gostava dela (para namorar ) e a resposta veio sem rodeios: estou entre você e a Julia, do Pentágono.

A maior parte dos desencontros não tem consequencia. A vida é feita dos encontros, dizia com razão o Vinicius. Mas algumas histórias poderiam ser escritas a partir de tudo o que não deu certo, do que não rolou e do que a gente fez diante disso. Como a jornalista e roteirista Nora Ephron ( When Harry met Sally, Sleepless in Seattle…) que registrou o episódio de quando o marido a traiu no livro Heartburn, que depois virou filme de sucesso com Jack Nickolson e Meryl Streep. Tudo é uma questão de angulo.

Publicado quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 às 16:19.
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A primeira pedra

Quando penso na triste história da iraniana Sakineh Ashtiani, inicialmente condenada `a morte por apedrejamento por trair o marido e tramar o seu assassinato, a primeira coisa que me vem `a cabeça é o absurdo desta punição medieval. Não sei porque a execução na cadeira elétrica parece melhor, se é porque é mais rápida, asséptica, discreta e silenciosa. Se são os meus valores ocidentais que me afastam da culpa de não me manifestar a respeito. É estranho pensar em apedrejamento em tempos de IPad, de cirurgia de miopia a laser ( minha filha fez em 5 minutos esta semana), de massa pronta para bolo, débito automático, GPS e tantas outras facilidades do nosso cotidiano.

Me lembrei de uma cena do filme A vida de Brian, do Monty Python (http://www.youtube.com/watch?v=0t_NY50l7lw), que se passa na Judéia, ano 33 D.C. As mulheres, proibidas de participar dos apedrejamentos, muito comuns na época, compram barbas postiças e se disfarçam toscamente de homens para poderem ir. Além das barbas, vendidas em bancas nas ruas como as dos nossos camelôs, há o comercio de pedras em diversos tamanhos e formatos, adquiridas a caminho da execução. No filme, o condenado é um homem acusado de blasfêmia (ele profanou o nome de Jeová) e a massa de apedrejadores é formada basicamente de mulheres, excitadíssimas com a oportunidade de externar livremente a sua agressividade.

Não acho justo matar a pedradas uma mulher que traiu o marido. Nem mesmo se ela tramou o seu assassinato. Vai saber. Pobre de quem tem que julgar a vida dos outros. No entanto, a meu ver, muitas mulheres poderiam ser apedrejadas para largar mão de besteira. Essas que carregam bichos de pelúcia quando vão viajar merecem uma pedra na cabeça. As que fazem voz de “cliancinha” para o namorado também. E as que espremem cravos dos maridos na praia e ainda elogiam o tamanho do bicho colado `as suas unhas longas. Tenho vontade de apedrejar uma mulher que viaja com os pés descalços, expondo unhas pintadas e calos `a vontade, no painel do carro. As que vão pegar as criancas na escola, `as 5 da tarde, com roupa de ginástica e motorista, eu apedrejaria de inveja. As que estão congelando, com micro vestidos na fila da balada ao lado dos meninos, bem confortáveis nas suas calcas jeans e camisa, poderiam ser apedrejadas já antes de sair de casa. Mulher histérica que chora em show precisa tomar pedrada. As que dirigem feito homem no mau sentido, competindo por cada milímetro de rua, xingando e mostrando o dedo do meio. Mulher que atrasa o grupo porque fica se maquiando ou fazendo chapinha no cabelo. Mulher que diz “ a minha derma” ou “o meu gineco”.

E tantas outras.

Talvez não haja pedra suficiente no mundo.

Publicado segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 às 11:38.
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Pecados natalinos

Programa Elas & Lucros - 07/12/2010

Eu e minha irmã, Beatriz, fomos às compras de Natal no sábado à tarde. E ainda levamos uma filha cada. Programa de mulher sem juízo. Enquanto os maridos tiram um cochilo, a gente se estressa na rua. Mas isso é só aparência, estereótipo que a gente cultiva. Na verdade, mal entramos no carro e já estamos absolutamente felizes e animadas com a perspectiva de algumas horas sem chefe, sem cliente, sem obrigações. Porque os presentes a gente compra enquanto conversa, come, dá risada, faz fofoca.  Escolhe coisa bacana para quem gosta e coisas horrorosas para os chatos. Roupa tamanho  gigante para uma prima metida que acabou de ter bebê: “Ela não está deste tamanho, Beatriz.” “Claro que está. Você não a viu de costas.” Panetone integral sem açúcar para a professora que tratou mal a nossa criança. E a cada descoberta é aquela gritaria: “Vem ver o que eu achei ! Isso aqui é a cara da mamãe! “, de pura maldade porque é uma blusa com furos enormes nas costas que nem ela nem ninguém jamais vai usar. E depois a gente morre de rir. É o verdadeiro espírito natalino.

As crianças acompanham distraídas achando que vai sobrar alguma migalha para elas no meio de tantas compras. De vez em quando a gente se lembra delas e volta para resgatá-las perdidas entre as araras. É preciso ficar de olho.  No sábado, descobrimos, tarde demais, que elas tinham roubado uns mini papais-noéis de uma loja enquanto nós pagávamos do outro lado. Nas calçadas, hordas de mulheres se arrastam lentamente carregando sacolas, algumas zumbis, outras com o olhar tenso, a maioria falante e animada. Todas unidas numa irmandade acima do bem e do mal: as compras de Natal. A desculpa perfeita para gastar dinheiro. Aquela autorização Divina que afasta toda a culpa. Porque a cada dois presentes para alguém, a gente fica com um. Eu entro em casa e coloco metade das sacolas debaixo da árvore e a outra metade escondo debaixo da cama.Áí, meu Deus, acho que vou perder meu emprego aqui, na Elas&Lucros. Um ano inteiro de educação financeira destruído em 5 minutos de mau exemplo. E compramos tanta bobagem…

Ainda no final de semana fui visitar meus pais e encontrei pendurado na porta o Papi Noel gay que eu trouxe de Londres para o meu pai no ano passado. É lindíssimo, chiquérrimo, todo de paetês e purpurina, mexe os braços, as perninhas e o pescoço, claaaaaro, quando a gente toca nele.  Só me dei conta de que o requebrado e o figurino eram um pouquinho exagerados quando o rapaz que fazia o pacote começou um verdadeiro show de malabarismo, abrindo no ar folhas e folhas de papel de seda em tons de rosa, jogando purpurina com as pontas dos dedos como quem coloca pitadas de tempero na comida e fazendo laços de todos os tamanhos.  Exagerou  tanto na atuação que passei a olhar para os lados e percebi onde estava.  A loja era um verdadeiro altar ao mundo feminino.  Estavam lá as deusas do cinema e da música, Judy Garland, Cher e outras, em réplicas e porta-retratos e ícones femininos do universo infantil, as fadas todas, a Rainha Má, de Alice no país das Maravilhas, a Sininho do Peter Pan. Atenção: não havia princesas lindas, virgens e bem comportadas. Eram figuras  às vezes acima do peso como a Rainha ou minúsculas e mudas como a Sininho, com personalidades fortes, ciumentas, bravas, gente normal, afinal de contas. O fato é que nesse ambiente exótico comprei o Papai Noel gay que meu pai amou! E está lá na porta deles, rebolando cada vez que alguém entra ou sai da casa.

Publicado terça-feira, 7 de dezembro de 2010 às 14:33.
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